Foi penoso


Assistir ao frente-a-frente entre José Pacheco Pereira (JPP) e André Ventura (AV).

Não sei o que passou pela cabeça de um homem experimentado como JPP desafiar AV para um debate, algo impossível de acontecer com ele.

A sessão televisiva merece comentários de duas naturezas: forma e conteúdo.

Começando pela forma.

Com AV não se debate, analisa ou conversa, algazarreia-se. O histriónico AV não fala, berra, grita, pula na cadeira.

Quem quiser enfrentar AV tem de se comportar como ele, usar a mesma tática e ir “para cima dele”. Usar as mesmas armas, gozá-lo e tirar partido das suas contradições. Eu sei que é preciso ter estômago para o fazer, mas não foi AV que desafiou JPP, que sabia ao que ia e não se preparou.

Como não está talhado para este tipo de confrontos, pôs-se a jeito e perdeu.

JPP anda nestas lides há décadas. Devia ter imposto condições, começando logo pela escolha do pivô. Deu o ouro ao bandido. O pivô não esteve à altura, não mandou calar AV sempre que o interrompia. Pelo contrário, pronunciou várias vezes o nome de JPP, em surdina, mas audível, por este se estar alegadamente a alargar nas intervenções, nunca tendo admoestado AV pelo comportamento taberneiro. Foi confrangedor ver JPP pedir desculpa a AV por o interromper.

Mal JPP balbuciava uma interjeição tinha AV logo a interrompê-lo.

Indo às questões de conteúdo.

JPP não conseguiu rebater AV e, por isso, não prestou um bom serviço à democracia.

Montou uma “instalação” com livros em cima da secretária. Para quê? O que queria mostrar? Queria mostrar a AV que era um tipo erudito?! E qual foi a serventia de trazer a moca do general Kaúlza de Arriaga? Para quê?!

Como era mais do que esperado, AV apresentou-se com o relatório das sevícias. Só tinha isso para mostrar. Mesmo assim, AV caiu na asneira de dizer quem mandou fazer aquelas averiguações e JPP não aproveitou o erro. Foi o Conselho da Revolução, sim o Conselho da Revolução.

O que aconteceu no RALIS foi o serviço de um bando energúmenos. Mas, não era perseguição institucionalizada, não era política de regime, eram casos espúrios, caso contrário não teria sido um órgão de poder a tomar a iniciativa de mandar averiguar e acabar com o desmando. JPP não aproveitou a borla que AV lhe deu.

Talvez AV pudesse dizer qual foi órgão de poder que governou Portugal por décadas a fazer averiguações semelhantes. Uma coisa são casos espúrios à margem do poder do Estado e por este condenado, outra coisa é a institucionalização da repressão, sistemática e prolongada assumida como política de Estado. Não são comparáveis e JPP não foi capaz de desmontar a coisa.

JPP também podia ter dito que muita da canalha que levou a cabo ou patrocinou esses atos escabrosos virou a casaca. Um deles foi até à Comissão Europeia, Golman Sachs, apoiou a invasão ao Iraque, etc. Antes de virar a casaca ainda roubou a mobília da Faculdade de Direito de Lisboa e levou-a para a sede do seu partido.

Quando AV falou das FP25, de má memória, JPP devia tê-lo interrompido de imediato e perguntado o que é que isso tinha a ver com o assunto, com os acontecimentos que se seguiram ao 25 de abril. Qual a relação? Qual a causa efeito? Mas já que AV veio falar sobre o assunto, JPP devia ter explicado o que foram os grupos terroristas MDLP e ELP responsáveis por mais de 600 ataques terroristas concentrados, na sua maioria, em dois anos.

JPP devia ter lembrado AV e informado os espetadores das ligações do MDLP a atentados bombistas que se estenderam até 1977, a sectores do Estado Novo e a grandes grupos económicos, com dezenas de mortos, atentados à bomba contra sedes de partidos de esquerda, assassinato do padre Max, da estudante Maria de Lurdes Ribeiro Correia, e de Rosinda Teixeira num atentado à casa da família.

JPP podia também ter lembrado AV que muitos dos envolvidos nesses atentados regressaram a Portugal sem consequências judiciais, tendo algumas das figuras do grupo terrorista MDLP integrado posteriormente partidos como CDS, sendo um deles hoje um dos vice-presidentes do partido que AV lidera.

JPP podia ter recordado AV que o ELP fez ações armadas diretas com o intuito de reverter a situação política ao pré 25 de abril, aquilo em que ele está verdadeiramente empenhado, como protofascista que é. Falamos de um grupo armado fundado e liderado por Agostinho Barbieri Cardoso, ex-subdiretor-geral da PIDE/DGS. O ELP esteve envolvido em centenas de ações violentas, atentados bombistas e espancamentos.

JPP podia ter dito que ao contrário da ditadura fascista, o regime democrático saído do 25 de Abril nunca prendeu ninguém por delito de opinião. Podia ter esclarecido que os presos que AV chama de políticos foram presos na sequência de tentativas de golpe contra o regime de Abril. Podia ter lembrado AV que a Democracia optou por amnistias.

E JPP não disse nada disto. Preferiu exibir a moca do Kaulza de Arriaga em vez de “ir para cima” de AV e explicar o que acabo de referir recorrendo a sound bites como faz AV.

JPP falhou, não foi capaz de pôr em sentido o «puto» hiperativo aos pulos na cadeira e a interrompê-lo. Não converteu nenhum não convertido. A comunicação foi pobre. Não foi eficaz, acabando por dar trunfos a AV. Os cordeiros mansos não se devem meter com lobos.





 

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