OS CRISTÃOS-NOVOS





Helena Matos publicou no Observador, no dia 26 de abril, um artigo em que não só falsificou a história como veio “meter-se comigo”. Ou se quiserem, veio provocar-me. Enviei uma resposta a José Manuel Fernandes (JMS), diretor do jornal, que este decidiu não publicar. Passo a partilhá-la agora neste blogue.

Hayek deve estar envergonhado do provincianismo bacoco de alguns dos seus seguidores lusos. O comportamento de JMS é típico dos maoístas convertidos a novas ordens, em que “ética” não passa de uma ideologia de circunstância para enganar distraídos. A não publicação da minha resposta configura uma situação de censura; JMS protegeu Helena Matos e silencia uma resposta que desmonta e desafia as lucubrações da sua amiga. Afinal o liberalismo de JMS limites. É só para os amigos. Solicito que divulguem o artigo que se segue.

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No dia 26 de abril de 2026, o jornal Observador publicou um artigo assinado por Helena Matos (HM) com o título “Os capitães, as nossas tropas e as malhas da ideologia”, em que relata duas histórias - uma ocorrida em Angola e outra em Moçambique – no ido ano de 1974. Sem existir qualquer relação com o assunto, HM decidiu mencionar o meu nome no post scriptum. HM veio «meter-se comigo». O pano de fundo da provocação prendia-se com a minha presença na sessão comemorativa do 25 de abril (25A), na Assembleia da República (AR).

Dizia HM estar muito espantada «por entre os presentes ter vislumbrado [no local da tribuna atribuída à Associação 25 de abril (A25A)] o major-general Carlos Branco que, segundo a sua nota curricular, nasceu em maio de 1958, logo a 25 de Abril de 1974, ainda nem tinha completado 16 anos, portanto nem soldado podia ser. A não ser que o facto de o major-general Carlos Branco ser vogal suplente da direção da A25A o gradue em capitão de Abril!».

O comentário é, no mínimo, malicioso. Ao contrário de quem por ignorância destemida faz o mesmo comentário, HM sabe muito bem - se não sabe tinha obrigação de saber - que as câmaras de televisão acompanham, utilizando as suas palavras, não o grupo de antigos militares de abril, como ela afirmou, mas sim a delegação da A25A convidada nominalmente pelo presidente da AR para estar presente na cerimónia, que naturalmente integra maioritariamente militares de abril, mas não só.

As delegações da A25A que participaram ao longo dos anos nas comemorações do 25A na AR incluíram quase sempre civis como foi, mais uma vez, este ano o caso, que HM convenientemente não viu. Nalguns anos integraram inclusivamente mulheres. Cerca de metade dos sócios da A25A são civis e cerca de 20% são mulheres. Desde sempre, mulheres integraram a sua direção. E já agora, para não disparatar, sugiro que HM leia o estatuto da A25A, em particular o seu Art.º 5.º. Não se tratou de distração, mas sim de desonestidade intelectual deliberada para afetar a minha credibilidade. HM foi trapaceira.

Mas o verdadeiro desconforto de Helena Matos até nem é bem comigo, mas com tudo o que lhe recorde o 25 de abril. O que seria mesmo bom para HM era não existir a A25A e, se possível, apagar da memória os militares de abril. Não consegue disfarçar a hostilidade aos militares de abril. Infelizmente não está sozinha nesse almejo.

Mas por falar em memória, eu acho que até a compreendo muito bem. Ao contrário de outros radicais de extrema-esquerda, entre os quais o seu patrono desde os tempos do Público, que sempre assumiram a sua militância nessas causas, HM foi discretamente varrendo-a para debaixo do tapete. Vão longe os tempos em que devorava os escritos do adorado Mao e o livro vermelho era a sua referência ideológica. HM integra o grupo daqueles que evitam dizer o que foram, fizeram e por onde andaram ideologicamente durante o designado PREC e na segunda metade dos anos 70, do século passado. As suas notas bibliográficas conhecidas são parcas nessa matéria. Não é conveniente para a carreira.

HM integrou o grupo dos defensores da «revolução proletária» que semeou o caos e a confusão durante o PREC, que vêm agora, como se nada fosse com eles, falar mal desse período e de quem quis levar o país para maus caminhos, como se eles não tivessem participado ativamente nesse processo. Põem-se de fora. Um pouco como a criança com doce nos lábios a dizer à mãe que não sabe onde está a compota.

Muitos destes rapazes e destas raparigas, não só renegaram capciosamente e de modo silencioso o seu passado, como se sentiram obrigados a dar provas de obediência à nova ordem que abraçaram, demonstrar veementemente, para que não existam quaisquer dúvidas, as suas novas lealdades. Sentiram a necessidade de fazer melhoria de nota e de evidenciar um inefável zelo pelas novas crenças.

António Guerreiro caracterizou-os superlativamente (“ontem esquerdistas, hoje notários”). Dizia ele, «… Eles [os esquerdistas] podem ser arrependidos quanto às ideias, mas não quanto às pretensões e à vontade de poder e de autocelebração». «“Ética” é geralmente o nome que estes novos teólogos dão à sua [nova] ideologia. E é instalados nessa “ética” que ministram as suas lições. Tendo feito acentuadas viragens à direita, eles não se confundem, no entanto, com a velha direita: acumulam o que há de pior de um lado e de outro. Podem ter renegado tudo, podem ter feito um enorme esforço de reciclagem, podem estar treinados para triunfar no novo ambiente, mas há uma coisa de que não se libertam: as suas estruturas mentais e os seus métodos.» Pois é exatamente isto que se aplica a HM e muitos outros que andam por aí.

Todos mudamos de ideias, mal seria se assim não fosse. Começando por mim. Mas há os que mudam porque sentem que as lentes usadas para interpretar a realidade deixaram de ter poder explicativo, outros por conveniência, para melhor se inserirem e sem sobressaltos no sistema que alegadamente combatiam, naquilo que está a dar. Qualquer odor a 25A deixa HM agoniada, não perdendo uma oportunidade para o escarnecer, nem para desconsiderar aqueles que puseram as suas vidas e as suas carreiras em risco, para ela poder agora perorar.

Isso ficou claro nos dois casos que mencionou no seu referido texto. No de Cabinda, HM contou a versão de Silva Cardoso no seu livro a “Anatomia de uma Tragédia”, cujo argumento é desmontado por Pezarat Correia em «da Descolonização. Do protonacionalismo ao pós-colonialismo», onde lhe dedica um capítulo (“A tragédia de uma Anatomia”, pp. 495-499). O que HM escreve é factualmente falso. Não foi o MPLA que sequestrou o então brigadeiro Themudo Barata, mas sim a tropa portuguesa em resposta à sua condescendência com a atuação da FLEC no enclave.

HM devia ter-se informado com outras fontes e não apenas com aquelas que corroboram a sua agenda. Isso tem um nome. Uma abordagem séria justificava a apresentação de uma leitura alternativa do acontecimento, que HM não fez e que sabemos porquê. HM utilizou apenas a versão de Silva Cardoso em que este procurou justificar o fracasso do seu “alto-comissariado”, que levou à sua demissão ainda antes da independência, juntando-se assim aos que querem denegrir o MFA e o 25A.

A outra prende-se com o triste episódio ocorrido em Omar, um aquartelamento do Exército português na profundidade do território de Moçambique. HM podia ter consultado o trabalho de Aniceto Afonso onde o tema é abordado e onde se dá nota do modo como o comando-chefe (pp. 220-230) repudiou o comportamento execrável e desnecessário da FRELIMO. Ao contrário do que afirma HM, os soldados portugueses não se renderam, antes caíram numa cilada. É grande o atrevimento de quem na altura gritava “nem mais um soldado para as colónias” vir agora abordar um tema de reconhecida complexidade com maldosa ligeireza. Este exercício de um arrivismo militante é característico dos ex-esquerdistas devotadamente convertidos aos novos credos. A prosa de HM não desmerece do seu carácter pois é uma fraude absoluta.

PS: E já agora, como se pode constatar passados 50 anos, foram os militares do MFA que resolveram os problemas causados pelos esquerdistas, muitos aliados dos saudosos do 24 de abril, tanto nas colónias como na Metrópole.


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