sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O Pedagogo e o Generalato Reumático

      A revista “Sábado” desta semana traz um artigo de um conhecido articulista da nossa praça. Vem-nos explicar, com a serenidade dos sábios, que o processo sobre as mortes dos Comandos obriga a uma reflexão profunda. Não podíamos estar mais de acordo. Do alto do seu pedestal vem-nos informar que essa reflexão deve ser feita longe do circo mediático, das imprudências de julgamentos “morais”, da histeria e do cinismo, das tiradas sobre as “instituições eternas”, da nostalgia de certo generalato reumático, etc., etc.

      Devo dizer que fiquei arrebatado com tanto discernimento. A parte de que gostei mais foi a da nostalgia de certo generalato reumático. E essa toca-me, porque tenho tomado posições públicas sobre a matéria. Como o conteúdo de quase todas as tiradas dá para o hermético e encriptado (só os iluminados conseguem entender), fico com dúvidas sobre o que quer dizer com reumático, já que generalato consigo perceber. Até aí chego eu.

     A metáfora do reumático deve ter a ver com incapacidade/limitação física. Ora verifico que o distinto articulista é mais velho do que eu. Ia desafia-lo para um teste de Ruffier Dickson ou uma sessãozinha de luvas, mas desisti. Não parecia bem “estar a bater” em velhinhos. Se reumatismo se refere mesmo a incapacidade/limitação física então o articulista perdeu uma oportunidade soberana para estar calado.
      Provavelmente a metáfora não se aplicava à vetustez do Cartão de Cidadão, mas estava-se a referir a outros tipos de capacidades, de outro foro que não o físico. Se for assim, vou fingir que não percebi onde queria chegar.

     Mas não resisto a uma pequena provocação. Já vi trabalhos sobre a matéria muito melhores. Presunção e água benta cada um toma a que quer. Eu sei como custa ganhar a vida.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Ódio Patológico?! De quem?! A Saga das Mortes nos Comandos

O título sugere dois apontamentos: um de natureza comunicacional e outro judicial.

Primeiro apontamento.
Reiterando opiniões já veiculadas anteriormente, não são aceitáveis mortes em instrução. As ocorrências têm de ser investigadas à exaustão e as responsabilidades apuradas, com as devidas consequências.
Seguramente que um apuramento sério da verdade não pode ser feito através do festim mediático que se instaurou, condenando pessoas e instituições respeitáveis na praça pública com meias verdades. Por exemplo, insistir na mentira de que o médico mandou os instruendos rastejar até à ambulância. Falso. Falso mas muitas pessoas acreditam que é verdade; ou dizer que “só é Comando há apenas dois anos. Apesar da pouca experiência foi promovido a instrutor”. Só quem desconhece a instituição militar pode asneirar desta maneira. Isto não é informação; é manipulação da opinião pública. Assemelha-se às operações psicológicas, em que se mistura verdade com mentira para se atingirem os resultados pretendidos.
Alguns órgãos da comunicação social encontraram na morte dos dois instruendos do curso de Comandos um filão, explorando miseravelmente o infortúnio de quem morreu. Move-os a “share” e não o sofrimento dos familiares (que exploram à exaustão), ou o apuramento da verdade.
Convém relembrar que os chefes da redações deixaram de ser representantes dos jornalistas, para passarem a ser dos acionistas. Isso explica, pelo menos parcialmente, as evoluções negativas registadas nos últimos tempos na qualidade informativa, exemplificada pela tortuosa repetição de notícias "não notícias"; o “encher chouriços” com banalidades sem valor em nome do direito a informar, etc. Fomos confrontados esta semana com a cena patética de um repórter a “informar” diretamente do Comando de Forças Terrestres (CFT), em Oeiras. Desconhecia que o CFT tinha mudado para a Amadora há uns meses, e as instalações que nos apresentava como o local onde os militares tinham sido detidos encontram-se agora desocupadas. É esta gente que se arvora da verdade e do rigor.
A centralidade do processo informativo passou da informação para o apresentador. O que está é em causa é o “show off” dos pivots transformados em vedetas. Em vez de informação temos espetáculo! é a vitória do arrivismo! Só pode ser gozação chamar-lhe jornalismo de investigação.

O segundo apontamento.
Fomos surpreendidos na última 5.ª feira com a inédita detenção de sete instrutores do curso de Comandos pela Polícia Judiciária Militar, na sequência de mandados de detenção emitidos pela procuradora do Ministério Público Cândida Vilar. Segundo o despacho, face aos indícios da prática dos crimes de abuso de autoridade por ofensa à integridade física, à personalidade dos suspeitos movidos por ódio patológico, irracional contra os instruendos, que consideram inferiores por ainda não fazerem parte do grupo de Comandos, o DIAP de Lisboa entendeu que havia perigos de continuação da atividade criminosa e de perturbação do inquérito.
Depois de toda mediatização provocada pela linguagem hostil e agressiva do despacho, o juiz de instrução decretou que os arguidos saíssem todos em liberdade, com termo de identidade e residência. A medida mais gravosa foi aplicada ao capitão médico. Foi suspenso de exercer funções médicas (apenas) em unidade militares, podendo continuar a exercer a prática clínica no SNS ou privadamente. A montanha pariu um rato.
Haveria necessidade de tanto escândalo e humilhação dos militares (e consequentemente da Instituição Militar) provocando a sua aparatosa detenção para depois irem todos em liberdade e ficarem sujeitos à medida de coação menos gravosa? Desde logo, a sensata decisão do juiz de instrução “tirou o tapete” à procuradora, deixando passar a ideia que houve um erro de avaliação (sem o fazer explicitamente).
O comportamento da procuradora foi de uma gravidade extrema. Explicaremos porquê.
1. A detenção com base no perigo de continuação da atividade criminosa e de perturbação do inquérito é, no mínimo, desajustada e infeliz. Os militares foram detidos quando faltavam cinco dias para terminar o curso, já na chamada fase operacional em que a continuação da alegada atividade criminosa era muito remota. Falar em perturbação do inquérito mais de dois meses e meio após as mortes, por parte de pessoas que convivem diariamente é um argumento tão insensato que nem merece comentário. A Sr.ª procuradora devia ter feito mais trabalho de casa. 
2. O texto do despacho da procuradora está envaido de preconceito. Em vez de provas temos apreciações subjetivas. E raiva. Há algo que não bate certo com o senso comum. Não é sério fazer juízos de valor de natureza psicológica sobre arguidos que nunca ouviu, com quem nunca falou.
3. Os termos usados no despacho são de uma agressividade gratuita e não estabelecem uma relação de causa / efeito para as mortes. Resumem-se a interpretações extrajudiciais, opiniões, sem relação com factos. Falta-lhes a objetividade exigida ao exercício da justiça. A sr.ª procuradora pode fazer aqueles comentários no café, no intervalo de uma dentada no pastel de nata; nunca num documento oficial.
4. Ódio patológico é uma doença. Tem de ser tratado, não punido. Pessoas com problemas patológicos do foro psiquiátrico são inimputáveis. Ou será que estou a ver mal?
5. A procuradora meteu no mesmo saco “Comandos”, um corpo de tropas respeitável que muito tem dado ao país, com o gangue do multibanco, os “skinheads” ou os “No Name boys”, aquilo com que estava habituada a lidar, antes de ter sido afastada de funções. Parece não ter ainda percebido que já não presta serviço na secção de criminalidade violenta, do DIAP.
6. Tendo o  DIAP uma secção (a 10.ª) que trata apenas da investigação de crimes militares, não se percebe (se calhar até se percebe) a nomeação de uma pessoa desconhecedora das especificidades do funcionamento da Instituição militar para investigar este caso. 

Para já, a procuradora perdeu a primeira batalha. Não conseguiu a prisão preventiva dos arguidos, o seu objetivo imediato. Tudo indicava que as palavras utilizadas no despacho visavam obter do juiz medidas de coação mais duras, nomeadamente a prisão preventiva, apesar de os seus pressupostos não se encontrarem configurados. Era óbvio para qualquer observador isento, o que parece não ser o caso em apreço.
O despacho da Sr.ª procuradora revela que não se encontra à altura do desafio que o Ministério Público lhe entregou. Falta-lhe imparcialidade e lucidez. Move-a algo estranho e indecifrável. O bom sendo aconselha-me a não ir mais longe em comentários sobre perfis e estados psicológicos. Resta-me, contudo, uma dúvida “existencialista”. Quem é que afinal tem ódios patológicos?

Post Scriptum

1. Porque é que o programa “Sexta às 9” entrevistou o diretor de saúde militar das Forças Armadas em vez de entrevistar o diretor do Hospital das Forças Armadas (HFAR)? Teria sido seguramente muito mais esclarecedor.
2. O médico afirmou que abandonou o posto de trabalho para preparar a receção dos militares acidentados no HFAR. Porquê? É estranho. Mais tarde ou mais cedo, alguém terá de esclarecer o que aconteceu para que o médico não tivesse conseguido evacuar os dois doentes pelo canal sanitário militar. Estou convicto que em sede própria será encontrada resposta para esta questão.
3. O diretor de saúde das Forças Armadas afirmou que a urgência do hospital está sempre preparada. Posso arranjar dezenas de pessoas disponíveis para testemunhar o contrário. Começando pelo meu próprio caso. Seria interessante fazer um questionário sobre o nível de satisfação dos utentes do HFAR. Sobre a alegada preparação do serviço de urgências, seria fundamental, por exemplo, esclarecer se a capacidade de hemodiálise instalada na unidade de cuidados intensivos é compatível com as necessidades.
4. Ficou-me uma dúvida. Qual é afinal o canal de evacuação sanitário? O INEM?


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Terrorism or Insurgency? Europe at a Cross Road










        The 2015 terrorist attacks in Paris and this year’s again in Paris and Brussels had a tremendous impact on the European public opinion. This brought terrorism and ISIS to the media’s front pages and headlines. ISIS claimed responsibility for the deadly multiple attacks that shook Paris and Brussels. Many pundits and politicians saw these events – and others similar - as expressions of the “revolution” that ISIS is allegedly exporting worldwide. In other words, a terrorist threat posed by ISIS to Europe.
We disagree with the exaggerated manner in which these attacks are presented to the public and the menace ISIS is to Western security. A limited danger has been portrayed as an “existential” threat, spreading fright and anxiety.
In the media, in political discourse, in our daily lives, terrorism is now perceived as being omnipresent. A certain form of collective psychosis is developing within the population, which is perhaps more insidious and dangerous than terrorism itself.
As the fear of terrorism grows in Europe, it is important to determine how real the threat is. According to the Global Terrorism Database, in the past 45 years, there have been more than 16.000 terror attacks in Western Europe, an average of more than 350 year.
The peak was reached in 1979, when 1,019 attacks were perpetrated in Europe, but all through the 1970s, 1980s, and mid-1990s attacks occurred with an average frequency of about 10 per week. Since 1997, the trend line has been even lower[1].
This year, however, stands out in terms of casualties. Both the number of dead and wounded is above the average of the past 45 years, though still below the levels of the 1970s and 1980s. Indeed, there were significantly more attacks – and victims – in the last decades of the 20th century than in the first part of the 21st.
For instance, according to figures from the Global Terrorism Database, there were more than 1,000 attacks in 1979 in western Europe compared with around 300 in 2015. From the mid-1970s until the mid-1990s, more than 150 persons died every year from terrorism in Europe, while that number dropped to double digits in the following years. Even with the Paris attacks, there were still fewer fatalities from terrorism in Europe in 2015 than in an average year of the late 20th century. Today’s fear of terrorism has more to do with psychology – how people perceive and live with terrorism – than with the actual threat.
The prevailing idea attributes these acts to ISIS through their proxy obedient dormant lone wolves residing in European states, ready to wake up and lash out attacks when ordered to do so. The advanced explanation misses the point and does not in reality explain the phenomena behind those acts. Beyond insufficient, the responses seem to be rather simplistic and divert the attention from the crucial debate: what do these jihadist attacks really mean to Europe?
The menace is conveyed in a misgiving manner, masking other security challenges that require urgent care, which are not on the agenda of the European policy makers. The answer that we will try to rehearse in this paper is much more complex: there is in fact an existential threat to Europe however, it is not posed by the ISIS, but by the expanding radicalization of large sectors of the Muslim population in Europe, which those attacks are just an expression of.
We argue that those attacks are just manifestations of social movements on the rise with sectarian motivations capable, in the long term, of developing into insurgencies; with potential to evolve into mass movements that will wipe out the continent, if the European decision makers do not take firm and urgent measures, in a coordinated manner.
Those vicious terrorist attacks have to be understood within the framework of sectarian insurgent movements still in the nest. Regardless of what will happen to the ISIS in the battlefield, the evolution of these socio-political movements will not be influenced by the ISIS’ fate. These movements do not need the ISIS to survive; they are autonomous, autochthones and not necessarily an ISIS lunga manus. Therefore, a couple of matters need previous clarification before moving onto the analysis of the current jihadist upsurge in Europe.
Firstly, we need to understand what kind of movement the ISIS is and what differentiates it from Al Qaeda: the former is an insurgent movement that uses terrorist tactics, as any insurgent movement; and the latter a terrorist organisation. Both organisations pursuit the same goal: to found a global caliphate, but the ways to achieve it are radically different. Despite belonging to the same Salafi - jihadist family, there are significant conceptual and tactical differences between them.
Al Qaeda prioritizes the distant enemy, that is, the United States and European countries. It aims at attacking first these enemies and delaying confrontation with its immediate enemy, i.e. the Middle Eastern regimes, including the Shia’s. Its attention is concentrated on killing and fighting Americans; Al Qaeda ordered its followers to avoid distracting jihad away from the distant to the closest enemy.
Conversely, the ISIS actively pursues an “Iraq first” approach. In contrast to Al Qaeda, ISIS prioritizes the fight against Shias (wherever they are) and Iran, putting them on the top of the enemies’ list.  The ISIS sees the struggle against the United States and European countries as a secondary goal that must be deferred until a Sunni Islamic state is built in the heart of Arabia. Its main goal is to consolidate its grip on the Iraqi and Syrian territories it occupies. Why is this important? Because it will help us to understand the real ISIS reach in Europe and in the world. We will elaborate on this issue further on.
A second point that deserves to be underlined and that clearly differentiates a terrorist from an insurgent organisation is the support of the population. In this sense, ISIS differs fundamentally from Al Qaeda. While, on the one hand, ISIS nourishes a social constituency rooted in a pan-Sunni identity that provides it with a plentiful source of potential recruits (Gerges, 200) as well as a territorial and political safe haven; on the other hand, Al Qaeda is an underground, transnational and borderless organization (Gerges, 223).
As an insurgent group, ISIS intermingles with local Sunni communities. ISIS has a social base. It thrives among poor and disenfranchised Sunni communities. The lower-class background of ISIS’s combatants explains why the organization justifies its actions as a defense of the poor and disfranchised (Gerges, 11). The ISIS narrative found acceptance in socially traumatized rural areas and urban poverty belts devastated by drought and war. ISIS used the revolt of the poor, particularly agrarian populations against authority as an integral part of its ideological project (Gerges, 200). Moreover, Sunni rebels and tribes played a pivotal role in facilitating ISIS’s military actions. ISIS recognized their role and the importance of their backing. ISIS might not be a mass movement but it is surely a social movement with an expanding social base, especially amongst the youth.
Thirdly, ISIS managed – so far - to lead a successful insurgency. According to the insurgency doctrine, ISIS reached the 5th phase of an insurgency which is called insurrection, when insurgent forces are able to fight the governmental forces on equal footing[2]. ISIS has a mini-professional army, an army capable of waging urban and guerrilla warfare, as well as conventional warfare (Gerges, 143). The military expertise provided by former Baathist officers, together with the skills of the veterans of Al Qaeda in Iraq, transformed ISIS into an effective fighting machine.
In this phase of an insurgency, insurgent forces are expected to control some parts of the disputed territory (the so-called liberated areas), where they develop rudimentary infrastructures of administration and governance[3]. This happened in several places and in Iraq as well. ISIS provides the inhabitants of these controlled territories with basic services, physical security and daily subsistence. ISIS has also set up its own system of taxation. All of this makes ISIS radically different from Al Qaeda.
For some pundits, ISIS is more dangerous than Al Qaeda because Al Qaeda neither controlled territory, people, nor had an immediate design to create a state of its own. We tend to disagree with such an assessment. This is precisely the weakness of the ISIS project. The explanation was given by Bin Laden himself, who warned against the rush to create Islamic emirates, because experience has shown that the United States would crush them. The declaration of Islamic states would be like “putting the cart before the horse” (Gerges, 95). It would become a vulnerability, a liability rather than an asset. Bin Laden advised his followers first to wage a war of attrition against the United States and weaken its ability to topple future Islamic states. The facts speak for themselves, Bin Laden was correct. The project of the caliphate is in serious danger and doomed to fail. It will fail because it was ill-conceived. 
This leads us to the real ISIS worldwide reach, of note in Europe. We also challenge the idea that ISIS has spread its tentacles worldwide; that ISIS is executing a campaign to terrorize and polarize Europe. The matter of the fact is that a series of attackers, especially the so called lone wolves, never had contacts with a terrorist group. We do question ISIS’ capacity to plan, direct, command and control terrorist attacks several thousand kilometres faraway. ISIS claims responsibility for their attacks as mere acts of propaganda to galvanize its followers. Pledging allegiance to ISIS is not necessarily synonymous of ISIS expansion. ISIS is not founding branches in other parts of the world. Its “expansion” works the other way around, in a bottom-up flow.
Thus, we need to understand exactly what it means when a group announces loudly its allegiance to ISIS and the precise implications thereof. The extensive network of ISIS sympathizers across Europe has an autonomous existence. These groups do not depend on ISIS to survive. As other jihadist organizations, these groups have existed on their own even long before the ISIS was born. We should not interpret a convenient and opportunistic pledge of allegiance as a tight operational and political control of these networks by ISIS.   The so-called Wilayats (provinces) are grotesque imitations of a real empire’s provinces.
It is true that ISIS used its military commander Abdelhamid Abouaad to coordinate multiple attempts in Belgium and France. ISIS may send similar skilled individuals back to their countries to plan terror attacks. We acknowledge that when ISIS came under sustained military pressure, it started devoting more resources to the battle abroad, to the fight against the distant enemy, by inciting supporters to take action into their own hands, in order to divert attention from its defeats. However, these actions only represent a tactical shift in ISIS’s modus operandi, not a strategic change of priorities. Its key goal continues to be the consolidation of its territories in Syria and Iraq. ISIS is fundamentally, like the Taliban, a parochial, localized and sectarian insurgent movement.
Having said that and without ignoring the possibility of ISIS inspiring terrorist attacks through existing networks, European decision makers should be focusing their attention on the real threat instead: the emergence of a sectarian subversive social movement in Europe. This movement is still in a very early phase. It has not established a strategic political agenda nor a centralized political leadership yet For the time being, we are just speaking about interconnected human networks.
The reputed Global Terrorism Index states that the majority of terrorist attacks in the West are not carried out by well-organized international groups. Instead, the terrorist threat in the West largely comes from lone wolf terrorism. A disclaimer should be added to this statement. The findings of the Global Index refer to terrorist acts with other motivations than jihadism. Despite this, it is interesting to note the definition of lone wolf terrorists used by the authors of the Global Index, that is, individuals or a small number of individuals who commit an attack in support of a group, movement, or ideology without material assistance or orders from such a group[4]. While we agree with the first finding, we lean towards challenging the second one, when it comes to the authorship of jihadist terrorism in Europe. These acts – with increasing complexity and specialization - organized by networks of radicalized groups constituted by homegrown elements with different expertise, do not fit in the lone wolf explanation.
The Spanish counter terrorism experience validates this working hypothesis. According to an El Cano Royal Institute report, the overwhelming jihadist actions in Spain have developed by small groups and networks. As the report underlines, it is better to call these groups networks not cells because their members may have frequently different external affiliations or bounds (Reinares, García-Calvo, 20).
According to the same report, the Jihadist mobilization in Spain since 2011 has stimulated the setting up of new networks and the reconstitution of old ones. These networks, initially constituted by Moroccan jihadists, have been progressively replaced by others comprising autochthon and homegrown elements. This development is an important game changer and a trend identifiable in other European countries.
The radicalization of Muslim groups in Europe is growing by the day. Evidences are out there: according to a pool in 2014, one in six French citizens sympathizes with the ISIS. This percentage increases among younger respondents, spiking at 27% for those aged 18-24[5]; in a report by the Belgium Defence Minister, responding to a parliamentary question, around 60 Belgian soldiers showing sign of radicalization were surveyed by military intelligence services[6]; groups of youngsters Muslims celebrated in the streets of Brussels the attacks at the airport and metro that killed tens of people. We could put cite many other examples.
The reasons why large segments of the Muslim population are radicalizing deserves an in-depth study. We will not miss the target, if we say the reason has deep sociological roots. Though a large portion of Muslims in Europe come from families who have lived there for three or four generations, many are not integrated in the societies where they live, living instead in isolated Muslim-dominated areas. In a telling example of this isolation, Matthew Levitt, the director of the Stein Program on Counterterrorism and Intelligence, at the Washington Institute for Near East Policy, noted in a recent article that only eight of the 114 imams in Brussels speak any of Belgium's traditional languages[7]. Muslims migrate to the west to better their lives, but they segregate themselves, form isolated communities and warn their children to not learn the ways of unbelievers. A recent survey in England shows that nearly 30% of the Muslim population have never entered in a non-Muslim home.
One important reason to be receptive to the appealing calls for radicalization is the worsening of the social conditions associated to Europe’s economic decline, which in different ways affects different segments of the population. The cooling of the European economy has disproportionately affected the Continent's Muslim population and has created an alarmingly high unemployment rate among young Muslims. In addition to frequent discrimination in the job market, this has left many Muslims feeling alienated, disenfranchised and resentful. This has created an atmosphere that favours those exposed to radical discourse to be easily recruited into radical political or even militant activities.
But the economic decline in Europe has another dangerous facet: it is responsible for a crisis of representation; a growing number of citizens no longer feel represented by mainstream political parties, unions and other traditional institutions. Therefore, the prospects of the Muslim population adhering to the principles and values of liberal democracies are very bleak, let alone joining the party system, which itself is discredited and going through a dramatic transition, with the political centre losing ground. If not addressed, this social movement risks evolving into an uncontrollable political problem. However, to be properly addressed this phenomena needs to be understood first.
For the aforementioned reasons, we seriously doubt European societies can really integrate these disenfranchised groups in the discredited party system of our liberal democracies. Michel Houellebecq’s controversial vision of the future in France is indeed benign, when he fictions in his book France an Islamized country by 2020, where universities have to teach the Koran, women have to wear the veil and polygamy is legal. All of this will happen without bloodshed, determined by the will of the majority when votes are casted.
Time is not yet ripe in Europe for the prevalence of a new order. At the moment, the aforementioned networks are not sufficiently interconnected yet, neither have a centralized leadership nor gather around a common political program. However, their resilient existence allows us to say they may represent the embryo of a social movement with potential of becoming a future political mass movement alien to the values of liberal societies. This risk is getting worse, if these disenfranchised groups adopt sectarian and fratricide violence to challenge those values and principles. In an initial phase, such a sectarian and subversive political environment in Europe would provoke the securitization, or if we prefer, the “Israelization” of the continent with the strengthening of its security structures and the marginalization of the moderate political forces. 
If this scenario is realistic, we are witnessing the preliminary stage of an insurgency, which does not exactly fit into the postulates of the insurgency doctrine. Actually, we can identify at the moment actions that belong at the same time to the three first phases of an insurgency. Although the subversive movement is still defragmented and without a unifying strategy and defined political goals (as far as we know), it is able to carry out visible actions, such as terrorist attacks.
Therefore, from our standpoint, it is dangerous to equal terrorism – a strategic option – to terrorist acts, a virulent tactical expression of an insurgency. Terrorism and terrorist acts are different things. The former is a strategy, the latter is a tactic. The similarities between these two phenomena is impeding many of us to understand the facts. That is why we consider the exaggeration of the threat posed by the ISIL as dangerous, namely its international expansion. The real threat is not ISIS, a short-lived ill-conceived and painful project, as foreseen, by the way, by Bin Laden, but the political mobilization of European Muslims who do not want to integrate in the system. This is where the challenge lies, existential and civilizational. 
Bibliography
·   Gerges, F. A., A History: ISIS (2016). New Jersey. Princeton University Press.
·   Ministério do Exército (1966). O Exército na Guerra-subversiva, Vol. I, Lisboa.
·   Reinares, F., García-Calvo, C. (2015). Terroristas, Redes y Organizaciones: Facetas de la Actual Movilización Yihadista en España (Documento de trabajo) 17/2015, Madrid. Real Instituto El Cano.
·   Global Terrorism Index 2015: Measuring and Understanding the Impact of Terrorism. Institute for Economics & Peace.
·   The Brussels Times, Saturday, 14 May 2016 19:49, Intelligence Services Surveying 60 Soldiers Showing Signs of Radicalisation. http://www.brusselstimes.com/media/k2/items/cache/faa000add7714a2605b386d1d560cef3_XL.jpg
·   Grant, M., as of 8/26/14 at 5:49 PM. 16% of French Citizens Support ISIS, Poll Finds. Newsweek. http://europe.newsweek.com/16-french-citizens-support-isis-poll-finds-266795?rm=eu
·   Matthew Levitt, My Journey Through Brussels' Terrorist Safe Haven, March 27, 2016, Politico. http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/my-journey-through-brussels-terrorist-safe-haven







[1] Merelli, Annalisa. Charter: Terror Attacks in Western Europe from the 1970s to now. http://qz.com/558597/charted-terror-attacks-in-western-europe-from-the-1970s-to-now.
[2] We considered as doctrinal reference the Portuguese counter-insurgency manual (O Exército na Guerra-subversiva, Vol. I. Ministério do Exército (1966). Lisboa.
[3] Idem.
[4] Global Terrorism Index 2015: Measuring and Understanding the Impact of Terrorism (2015). Institute for Economics & Peace quoting Simon, J.D., ‘Lone Wolf Terrorism: Understanding the Growing Threat’, Prometheus Books (2013). Page 54.

[5] Newsweek, Madeline Grant, as of 8/26/14 AT 5:49 PM. 16% of French Citizens Support ISIS, Poll Finds.

http://europe.newsweek.com/16-french-citizens-support-isis-poll-finds-266795?rm=eu

[6] The Brussels Times, Saturday, 14 May 2016 19:49, Intelligence services surveying 60 soldiers showing signs of radicalisation.
[7] Matthew Levitt, My Journey Through Brussels' Terrorist Safe Haven, March 27, 2016, Politico

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

OS “SEXTA ÀS 9/11” E AS MORTES NOS COMANDOS. UM EXERCÍCIOZINHO DE JORNALISMOZINHO DE INVESTIGAÇÃOZINHA


1. No passado 30 de setembro, pela terceira semana consecutiva, a morte dos instruendos do curso de Comandos foi tema dos programas “Sexta às 9/11”. Os programas que nos foram apresentados como sendo jornalismo de investigação (até se foi a França entrevistar a mãe de um dos soldados falecidos) na senda de uma causa nobre (esclarecer a verdade), não passaram de uma farsa informativa.
2. Três programas sobre o mesmo tema, sem se acrescentar nada de verdadeiramente significativo, sugere um ensejo desmesurado em explorar um rentável “scoop” em vez de uma verdadeira preocupação com o que terá levado ao trágico fim das vítimas. O despudor em publicar a entrevista da mãe de um dos falecidos, destroçada e emocionalmente vulnerável no rescaldo do funeral do filho, parece inserir-se no nosso argumento, em vez dos elevados propósitos de esclarecer a opinião pública sobre o sucedido. Explicaremos de seguida, os motivos de tão graves acusações.
3. Independentemente daquilo que se vier a apurar quando a investigação estiver concluída e os resultados forem tornados públicos (isto parece ser um exercício redundante para os mentores do programa, para quem não há dúvidas sobre a matéria), não poderemos deixar passar em vão o exercício manipulativo e mentiroso, repleto de falsidades em que consistiram aqueles programas. Muito poderia ser dito. Concentrar-nos-emos apenas nos aspetos mais importantes, para que o leitor consiga ler o texto até ao fim.
4. No primeiro programa (16Set), foi defendida a tese de que os dois instruendos que vieram a falecer foram retirados dos grupos de instrução por um “sargento mau” que os levou para um local recôndito, longe das vistas dos restantes instruendos, onde foram alegadamente seviciados. Alguém minimamente informado sabe que esta hipótese é completamente inverosímil. Os instruendos não pertenciam ao mesmo grupo. Ninguém está a ver um sargento “surripiar” um instruendo a um grupo comandado por um oficial. Os pressupostos desta tese são no mínimo delirantes. Só alguém completamente ignorante sobre o modo como funciona a instrução pode considerar esta possibilidade.
5. No segundo programa (23Set), os responsáveis devem ter-se esquecido da tese defendida na semana anterior. Serviram a audiência com uma nova tese que contradizia a da semana anterior. Afinal, parece que alguém terá visto (contaram) a comer terra um dos jovens que veio a falecer. Primeiro, não havia testemunhas, era um lugar recôndito, agora há umas testemunhas que ouviram alguém que tinha visto o jovem a comer terra. E só viram isso? só viram o jovem a comer terra? Não viram mais nada? E como é que alguém que está inconsciente come terra? Quem está inconsciente não consegue engolir.
6. A tese do primeiro programa não bate certo com a tese do segundo.
7. O segundo programa teve a colaboração de dois “especialistas”: um em medicina do desporto e outro em direito, por sinal um advogado bem conhecido do público pelo seu envolvimento em vários processos mediáticos.
8. Das várias observações feitas pelo reputado especialista em medicina do desporto vou comentar a que me parece ser mais relevante para o que está em causa. Uma pessoa informada devia saber que treino desportivo e treino militar só têm em comum uma coisa: a expressão treino, porque o resto é completamente diferente. Devia ter sido capaz de fazer essa distrinça, o que não aconteceu. Não é a mesma coisa fazer uma maratona ou uma marcha “Comando”. Esqui e combate em montanha invernal são coisas essencialmente distintas; paraquedismo e paraquedismo militar são igualmente diferentes; aplica-se o mesmo ao mergulho, etc. Umas são atividades lúdicas, as outras são atividades destinadas a preparar o combatente para sobreviver no campo de batalha. Como veremos, pode ser falacioso tentar extrapolar experiências de um caso para o outro. 
9. Os militares têm a mania de se fazer acompanhar de uns adereços (mochilas, armamento, capacetes, etc.). Quem vai para Andorra ou Serra Nevada esquiar com o intuito de fruir desce a montanha nas zonas de neve batida e em condições meteorológicas simpáticas. Enquanto o “invernante” sobe à montanha através dos denominados meios de elevação, a rapaziada militar sobe com peles de focas nos esquis e fora da neve batida, e desce onde não há pistas.  E não pernoita no hotel. Dorme em igloos ou em covas feitas na neve; e sempre acompanhado dos tais adereços. É capaz de haver alguma diferença entre atividade lúcida e preparação para o combate. Digo eu.
10. E o que é que nos propõe o especialista em medicina do desporto que se prestou a participar no programa? A guerra do Raúl Solnado! O seu conselho é que a atividade física deve ser cancelada ou interrompida a partir dos 28 graus (vejam o programa para confirmarem a veracidade do que afirmo). Isto não pode ser levado a sério! Sem pretender contestar os conhecimentos da pessoa em causa em matéria de medicina desportiva, tinha-lhe ficado bem alguma contenção verbal. Expôs-se. Não havia necessidade.  
11. Aproveito a oportunidade para esclarecer mais uma pequena diferença entre desporto e combate. O desporto é uma atividade de lazer, que envolve muito sacrifício na alta competição e pode em situações extremas levar à morte. Mas a acontecer isso, decorre de uma decisão do próprio. A guerra é diferente. A guerra é uma merda. Morre-se; mata-se; mata-se para não se morrer; deixa pessoas estropiadas mental e fisicamente para toda a vida. Não se pode dizer ao inimigo para parar a guerra quando a temperatura for superior a 28 graus. Combater acima dos 28 graus? Não, assim não vale. Não há guerra para ninguém. Sugiro que arranjem outros argumentos. Estes não servem. São maus de mais. 
12. O outro especialista, o conhecido advogado da nossa praça não estava informado sobre os acontecimentos. Podia ter-se preparado e saber, por exemplo, que os acontecimentos ocorreram em momentos diferentes. Dispensa-se a sua dissertação sobre as possibilidades teóricas legais do que poderá acontecer aos envolvidos no caso, que já eram do conhecimento de todos. Não contribuiu com a sua sapiência para aumentar o nosso conhecimento. E já agora convém esclarecer que o Exército não precisa dos seus conselhos paternalistas sobre a forma de como se prestigiar com esta investigação. Informe-se primeiro e fale depois.     
13. Na ausência de matéria séria para discutir, o programa enveredou por acusações graves e completamente infundadas: o Exército quer impedir o apuramento da verdade, o Exército quer abafar e ocultar, não quer esclarecer a verdade. Em que se baseiam estas afirmações? Onde está a evidência que o Exército está a fugir com o “rabo à seringa”? é grave a pivot do programa ter embarcado nesta linha de comentários gratuitos só porque não lhe satisfizeram o capricho de lhe dar informação que está em segredo de justiça.
14. Choca-me a ânsia desenfreada de notoriedade. Choca-me ver pessoas articuladas prestarem-se a comportamentos tipo “tesourinhos deprimentes”. O que os leva a isto? Contributo cívico para o apuramento da verdade? Certamente que não. Estará o nosso advogado disponível em apoiar pro bonno as famílias quando decidirem processar o Estado? Vi um dia destes um ex-membro do Tribunal Constitucional, ex-ministro e ex outras coisas no tabloide que dá pela designação de  CMTV, no programa da Maia, também a mandar bitaites sobre os acontecimentos nos Comandos. Estas pessoas não se enxergam? Vá lá, um pouquinho de pudor e bom senso.
15. O canal público tem repetido ad nauseam uma série de “imprecisões” que mais tarde ou mais cedo terá de se retratar e que são importantes em matéria de factos e de opinião pública: o primeiro acidente ocorre a meio do primeiro dia de treino, e não no segundo dia como tem vindo a ser reiteradamente afirmado (à boa maneira goebeliana); os Comandos assinaram um pacto de confidencialidade (nunca se fez isso em mais de 50 anos dos Comandos). Foi muito grave confundir a opinião pública misturando um contrato de trabalho que todos os soldados que prestam serviço no Exército têm de assinar, no mesmo pacote em que se falava em pacto de confidencialidade. Se não foi intencional, convém que alguém se esclareça rapidamente a trapalhada, porque é abjeto e absolutamente inaceitável manter esta “imprecisão” no limbo. A isto chama-se manipulação.
16. É mais do que natural que haja pessoas que não queiram falar com os promotores do programa. Também fui contatado pela sua direção para ser entrevistado. Não é de admirar. Desconfiam - legitimamente - do elevado propósito dos seus promotores. Não se podem queixar do facto das pessoas não quererem falar. Estão no seu direito. Daí a um pacto de silêncio vai uma grande distância.
17. O último programa (30Set) foi absolutamente tétrico. Foi brilhante a ideia de entrevistarem uma pessoa (mais cinco minutos de fama) que chumbou no curso de Comandos há 35 anos, para falar e fazer extrapolações sobre o curso de Comandos em 2016. Isto não é sério! É mais um exercício manipulativo! Afanosamente, o jornalista que entrevistou o tal “não-Comando” (fonte de elevada credibilidade para o apuramento da verdade) perguntava se também comiam terra nessa altura. Se soubesse da poda, ter-lhe-ia feito perguntas muito mais interessantes.
18. Os “Sextas às 9/11” dedicados aos problemas na instrução dos Comandos foram de uma qualidade confrangedora…rasteirinha. Quando os promotores do programa souberem distinguir um burro de um burro do mato venham então a jogo. A televisão pública não saiu dignificada deste exercício pobre e tosco.

domingo, 11 de setembro de 2016

Ainda as Mortes em Instrução no Campo Militar de Alcochete

1. Provavelmente não irei aumentar o número de amigos com o que vou escrever. Contudo, não poderia deixar de o fazer, face ao modo enviesado como os incidentes ocorridos em Alcochete, no dia 4 de setembro, estão a ser tratados em vários fóruns, deixando passar a ideia de que a responsabilidade pela tragédia deve-se à brutalidade da instrução e ao comportamento de instrutores insensatos e irresponsáveis. Não é o caso, como argumentarei de seguida.
2. Passada quase uma semana sobre os acontecimentos que vitimaram dois instruendos do 127.ª curso de Comandos é possível fazer uma leitura mais precisa do que aconteceu, mesmo antes de serem conhecidas as conclusões do inquérito que o General CEME mandou instaurar.
3. Não são aceitáveis mortes em instrução. Não há justificações para que isso aconteça. Tentativas para minorar a importância dos acontecimentos com casos semelhantes ocorridos noutros países ou com o risco associado ao exercício de qualquer atividade humana (maior numas do que noutras) fragilizam o debate, para além de serem grotescas e irresponsáveis. A opinião pública não aceita esses argumentos. Essa narrativa coloca a especialidade numa situação de grande fragilidade.
4. Devo dizer que é muito estranho o que aconteceu. Respostas rápidas correm o risco de serem imprecisas. As vítimas sentiram-se indispostas no meio do primeiro dia de exercícios. Apesar do calor que se fazia sentir, por muito violenta que fosse a instrução era muito cedo para causar tão trágico desfecho. A validade da tese de instrução com elevada intensidade e desajustada à temperatura que se fazia sentir tornava-se credível se tivesse ocorrido mais tarde. Quem lá andou sabe exatamente do que estou a falar.
5. A explicação baseada na carga exagerada da instrução não responde às dúvidas que se colocaram, pelo menos a grande parte delas. Conheço bem o comandante do Regimento de Comandos. Fui seu diretor do curso de Comandos. Foi o melhor classificado do curso. É uma pessoa sensata, ponderada e cautelosa. A isto acresce-se experiência no Afeganistão. Sei qual o seu pensamento sobre a instrução. Falámos muito sobre o tema. Nunca permitiria exageros. Para além do mais, houve alterações ao programa do curso, ainda antes do seu início, de modo a adaptar a instrução ao calor que se fazia sentir, nomeadamente suspendendo algumas sessões.
6. A não ser uma carga de esforço exagerada, qual poderia ser a causa? Não conhecendo as conclusões do inquérito, afiguram-se-nos algumas respostas extremamente plausíveis e verosímeis:
(1) Não se pode afastar a hipótese de uma avaliação médica errada. Não digo que foi, digo apenas que se tem de considerar como uma hipótese possível, assim como outras. É inexplicável o que aconteceu. O furriel que faleceu sentiu-se indisposto pelas 15h40, a meio do primeiro dia instrução. Muito cedo para acontecerem coisas desta gravidade. Foi afastado imediatamente da instrução e esteve em repouso cerca de 5 horas antes de falecer. Parece que não terão sido tomadas as medidas mais adequadas para o salvar. Se tivesse sido evacuado na devida altura as hipóteses de sobreviver eram bastante elevadas. Como é que é possível que não exista capacidade de evacuação imediata (necessidade verificada pelo médico pelas 19h) e o INEM só chegar a Alcochete pelas 20h37?
(2) Outra possibilidade prende-se com as limitações físicas impeditivas da frequência do curso, não detetados na inspeção médica como, por exemplo, uma cardiopatia congénita. Sobre este tema o relatório do inquérito poderá responder à especulação.
(3) Uma outra possibilidade, eventualmente mais remota, tem a ver com o recurso a estimulantes por parte das vítimas. Como no caso anterior, teremos brevemente resposta a esta questão.
7. A primeira hipótese merece uma análise mais cuidada. A evacuação das vítimas não foi um processo fácil e imediato. A médica de serviço ao HFAR recusou-se a receber todos os pacientes por não ter condições e, portanto, estes tiveram de ser encaminhados para hospitais civis. Cabe referir que o Hospital das Forças Armadas (HFAR) não tem serviço de urgências. Repito, o hospital militar nacional não tem serviço de urgência, fruto das restruturações da saúde militar levadas a cabo pelo governo anterior, naturalmente com cumplicidades no seio da Instituição militar, o que não deixa de ser algo tremendamente insólito e grave que tem de ser devidamente apurado. Na prática criou-se um centro de saúde avantajado em vez de um hospital. Os resultados dessa restruturação estão à nossa frente. Uma evacuação a tempo podia ter evitado este desfecho.
8. É aceitável que um hospital militar que devia funcionar como uma reserva da Nação para servir supletivamente as necessidades do país em casos de emergência ou de catástrofe se tenha de socorrer de hospitais civis, em tempo de paz, para internar quatro pessoas? Não só não é aceitável como os responsáveis pelo estado a que isto chegou têm de assumir as suas responsabilidades. A tutela do HFAR não pode sacudir a água do capote. Tem de explicar por que deixou a situação degradar-se a este ponto.
9. Igualmente grave é o modo a que chegou a saúde operacional nas Forças Armadas e no Exército em particular. As unidades foram desprovidas de meios sanitários adequados. Provavelmente terão capacidade para desencravar unhas. Do mesmo modo que a população evita os Centros de Saúde e se dirige às urgências dos hospitais, também o HFAR funciona, na maioria dos casos, como a primeira frente da saúde militar operacional. Por isso, quatro dos instruendos que foram ao hospital por precaução regressaram para a instrução. Os órgãos da comunicação social apresentaram as evacuações todas iguais, quando havia diferenças significativas entre elas. Ir ao hospital preventivamente enquadra-se no risco aceitável deste tipo de formação. Não pode ser utilizado como arma de arremesso contra a dureza da instrução, domínio onde não poderão haver cedências.
10. Sem pretender atribuir responsabilidades ao atual CEME que assumiu funções há alguns meses, não podemos deixar de ver com estranheza o facto do projeto de investigação em parceria com a Universidade do Porto, com o objetivo de definir “marcadores de esforço” que permitam atuar preventivamente e evitar a rabdomiolise ser uma iniciativa do próprio Regimento de Comandos, quando deveria ter sido um esforço organizacional de maior dimensão.
11. Pelos motivos longamente explicados, colocar toda a responsabilidade dos acontecimento em cima do Regimento de Comandos é incorrer num erro grave. É fechar os olhos aos erros no processo de criação do HFAR que mais uma vez não se mostrou à altura dos acontecimentos. E isto não acontece por causa da qualidade dos recursos humanos que ali prestam serviço, mas sim pela forma irresponsável, impensada e amadora como foi feita a restruturação da saúde militar. No apuramento das responsabilidades, a tutela do HFAR não pode ficar imune.

12. Vários órgãos da Comunicação Social têm ventilado a possibilidade de o Governo extinguir novamente os Comandos. Hoje, um partido político defendeu-o abertamente. Foi confrangedor ouvir dislates e manifestações de ignorância de pessoas que têm obrigação de ter mais conhecimento sobre aquilo que falam e de ser mais cuidadosas nas declarações que fazem, correndo o risco de não serem levadas a sério e deixarem de ser respeitadas. Não me parece sensato colocar essa possibilidade na agenda. No Estado da Arte do dia de hoje, tudo indica ter havido falhas graves num sistema de evacuação que devia ter funcionado e não funcionou. Não é sério colocar o ónus nos Comandos. 

quarta-feira, 1 de junho de 2016

A Teoria do Regabofe Aplicada ao Recrutamento dos Cargos Dirigentes do Ministério da Defesa Nacional (MDN)


Os cargos dirigentes a que nos referimos no título são os de Diretor-Geral e de Subdiretor-Geral. Passa-se algo de absolutamente insólito (e penso que de inédito) no MDN. O Diretor-Geral de Defesa Nacional (DGPDN) encontra-se em funções, em regime de substituição, há 1440 dias quando a lei estipula que os cargos dirigentes podem ser exercidos em regime de substituição, entre outras situações, por 60 dias sobre a data da vacatura do lugar, salvo se estiver em curso procedimento tendente à nomeação de novo titular.
Entretanto, em dezembro de 2013 houve um concurso (ano e meio após o incumbente do cargo ter sido nomeado em regime de substituição) com vista ao provimento definitivo do cargo que foi cancelado após as entrevistas, sem que os entrevistados tenham alguma vez sido informados dos motivos do cancelamento. 
O cancelamento do concurso pelo então MDN teria sido uma retaliação pelo facto do seu protegido, leia-se o DGPDN em regime de substituição, por ele nomeado há mais de ano e meio, não fazer parte da lista curta. Era conhecida a proximidade entre o DGPDN e o então MDN. O Presidente da CRESAP trocou-lhes as voltas.
Em julho de 2015, já no estertor da governação PSD/CDS, foi lançado um novo concurso para DGPDN. Com a previsível (nessa altura) vitória do PS, o incumbente do cargo decidiu não concorrer, para não passar pela humilhação de não integrar novamente a lista curta. Não lhe passava pela cabeça que o MDN de um futuro governo PS viesse também a ser um seu grande amigo do peito.
Quando o novo MDN – do governo PS – se apercebe que o seu amigo do peito não concorreu ao cargo que ocupava em regime de substituição e, por isso, estava fora da corrida decide cancelar o concurso argumentando que o perfil de competências definido pela anterior tutela não preenchia as exigências que se colocavam presentemente ao desempenho da função de diretor-geral de Política de Defesa Nacional.
À presente data, passados cerca de 90 dias de cancelamento do concurso (e da confirmação do incumbente em regime de substituição) ainda não foi lançado um novo procedimento concursal preparando-se o MDN para protelar no cargo, como fez o seu antecessor, o atual incumbente do cargo…e amigo do peito. 
É evidente e conhecida a existência de um triângulo de grande proximidade (nomeadamente geográfica) entre o antigo e o atual MDN com o DGPDN ao ponto de violarem descaradamente a lei. O atual MDN repete a “façanha” do seu antecessor, algo impensável numa democracia saudável.
Estamos todos na expetativa em saber qual poderá ser o conteúdo da nova carta de missão, quais serão as novas exigências que entretanto se vieram a colocar para o desempenho daquele cargo. Para já, o MDN fez saber que militares e diplomatas não poderão ser DGPDN por não serem isentos e refletirem posições corporativas. 
Fica-nos igualmente a curiosidade em saber qual poderia ter sido a reação dos diplomatas se o ministro dos Negócios Estrangeiros tivesse proferido declarações semelhantes relativamente à impossibilidade dos diplomatas ocuparem cargos dirigentes nos diferentes órgãos do MNE, nomeadamente de diretor-geral. O que pensarão os militares quando souberem que a sua tutela os pretere para cargos no MDN? Pagaria para ver o MNE a fazer o mesmo.
Espantam-nos estas declarações dada a reação virulenta do MDN contra as alegadas discriminações praticadas no Colégio Militar relativamente à orientação sexual dos alunos, que levaram à demissão do antigo CEME. Com este comportamento, o sr. Ministro revela possuir um sentimento de discriminação muito seletivo.
Esperamos ardentemente pela nova carta de missão, para ver se o Sr. ministro tem coragem de pôr no papel aquilo que já enunciou publicamente reiteradas vezes. Estamos muito curiosos, sobretudo em saber quem em Portugal poderá estar mais habilitado em matéria de planeamento militar de defesa, cooperação técnico-militar, relações internacionais de defesa, etc. que militares e diplomatas. Recordo que as exigências políticas do cargo de Diretor-Geral não são comparáveis às de Ministro ou de Secretário de Estado.
Mas as situações de regabofe não se cingem ao caso do DGPDN. A nomeação para o cargo de subdiretor-geral de Defesa Nacional é outro caso gritante. A atual incumbente do cargo, conseguiu ser nomeada pelo MDN com apenas oito meses de função pública, em detrimento de dois candidatos extremamente capazes, com vários anos de DGPDN, larga experiência profissional e provas dadas. Sabemos bem porque foi ela a escolhida. A razão não difere daquela enunciada para o caso anterior. Amiguismo, clientelismo e outras coisas parecidas. Mérito não foi...inquestionavelmente.  
A cereja em cima do bolo foi a nomeação do Diretor-Geral de Recursos de Defesa Nacional (DGRDN), durante muitos anos Diretor-Geral de Pessoal e Recrutamento Militar. O DGRDN é por acumulação Diretor Nacional de Armamento. Nesta situação participa (ou antes, deveria participar) em vários fóruns internacionais no âmbito do armamento e das indústrias de defesa, nomeadamente na Conferência de Diretores Nacionais de Armamento, uma instância da OTAN. Devido às suas insuficiências linguísticas e falta de conhecimento na matéria delega a representação nacional (manifestação de bom sendo, diga-se de passagem) no seu subdiretor-geral para o Armamento. Portugal deverá ser o único país da OTAN em que o incumbente do cargo não se faz representar naquelas reuniões pelos motivos referidos.
Em consonância com o governo anterior, este MDN continua a nomear para cargos dirigentes portadores de cartão de partido, mas pertencentes à antiga maioria. Merece que se lhe tire o chapéu.
Alguns leitores deste texto que saibam que concorri aos cargos de DGPDN e DGRDN e que não fui o nomeado poderão acusar-me ao escrevê-lo de ressabiamento. É fácil urdir essa acusação. Para os que me conhecem sabem que o faço como um ato de cidadania. Limitei-me a apresentar fatos. Deixo que cada um tire as suas conclusões.
A democracia não é algo adquirido para sempre. Aprofunda-se e/ou degrada-se todos os dias. Atos promíscuos como os apresentados não são um bom indicador da qualidade da democracia em Portugal. Cabe a nós todos não deixar que se degrade. Isso só acontece com mobilização e fiscalização dos atos daqueles que elegemos. Não os podemos deixar governar sem o nosso escrutínio. Deixo o pensamento e o apelo.