sexta-feira, 25 de novembro de 2016
O Pedagogo e o Generalato Reumático
A metáfora do reumático deve ter a ver com incapacidade/limitação física. Ora verifico que o distinto articulista é mais velho do que eu. Ia desafia-lo para um teste de Ruffier Dickson ou uma sessãozinha de luvas, mas desisti. Não parecia bem “estar a bater” em velhinhos. Se reumatismo se refere mesmo a incapacidade/limitação física então o articulista perdeu uma oportunidade soberana para estar calado.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
Ódio Patológico?! De quem?! A Saga das Mortes nos Comandos
O
título sugere dois apontamentos: um de natureza comunicacional e outro
judicial.
Primeiro apontamento.
Reiterando opiniões já veiculadas
anteriormente, não são aceitáveis mortes em instrução. As ocorrências têm de
ser investigadas à exaustão e as responsabilidades apuradas, com as devidas
consequências.
Seguramente que um apuramento sério da verdade
não pode ser feito através do festim mediático que se instaurou, condenando
pessoas e instituições respeitáveis na praça pública com meias verdades. Por
exemplo, insistir na mentira de que o médico mandou os instruendos rastejar até
à ambulância. Falso. Falso mas muitas pessoas acreditam que é verdade; ou dizer
que “só é Comando há apenas dois anos. Apesar da pouca experiência foi
promovido a instrutor”. Só quem desconhece a instituição militar pode asneirar
desta maneira. Isto não é informação; é manipulação da opinião pública.
Assemelha-se às operações psicológicas, em que se mistura verdade com mentira
para se atingirem os resultados pretendidos.
Alguns órgãos da comunicação social encontraram
na morte dos dois instruendos do curso de Comandos um filão, explorando
miseravelmente o infortúnio de quem morreu. Move-os a “share” e não o
sofrimento dos familiares (que exploram à exaustão), ou o apuramento da
verdade.
Convém relembrar que os chefes da redações
deixaram de ser representantes dos jornalistas, para passarem a ser dos
acionistas. Isso explica, pelo menos parcialmente, as evoluções negativas registadas nos
últimos tempos na qualidade informativa, exemplificada pela tortuosa repetição de notícias "não notícias"; o “encher chouriços” com banalidades sem valor em nome do direito a
informar, etc. Fomos confrontados esta semana com a cena patética de um
repórter a “informar” diretamente do Comando de Forças Terrestres (CFT), em
Oeiras. Desconhecia que o CFT tinha mudado para a Amadora há uns meses, e as
instalações que nos apresentava como o local onde os militares tinham sido
detidos encontram-se agora desocupadas. É esta gente que se arvora da verdade e
do rigor.
A centralidade do processo informativo passou
da informação para o apresentador. O que está é em causa é o “show off” dos
pivots transformados em vedetas. Em vez de informação temos espetáculo! é a
vitória do arrivismo! Só pode ser gozação chamar-lhe jornalismo de
investigação.
O segundo apontamento.
Fomos surpreendidos na última 5.ª feira com a
inédita detenção de sete instrutores do curso de Comandos pela Polícia
Judiciária Militar, na sequência
de mandados de detenção emitidos pela procuradora do Ministério Público Cândida
Vilar. Segundo o despacho, face aos indícios
da prática dos crimes de abuso de autoridade por ofensa à integridade física, à
personalidade dos suspeitos movidos por ódio patológico, irracional contra os
instruendos, que consideram inferiores por ainda não fazerem parte do grupo de
Comandos, o DIAP de Lisboa entendeu que havia perigos de continuação da
atividade criminosa e de perturbação do inquérito.
Depois de toda mediatização
provocada pela linguagem hostil e agressiva do despacho, o juiz de instrução
decretou que os arguidos saíssem todos em liberdade, com
termo de identidade e residência. A medida mais gravosa foi aplicada ao capitão
médico. Foi suspenso de exercer funções médicas (apenas) em unidade militares,
podendo continuar a exercer a prática clínica no SNS ou privadamente. A
montanha pariu um rato.
Haveria
necessidade de tanto escândalo e humilhação dos militares (e consequentemente
da Instituição Militar) provocando a sua aparatosa detenção para depois irem
todos em liberdade e ficarem sujeitos à medida de coação menos gravosa? Desde
logo, a sensata decisão do juiz de instrução “tirou o tapete” à procuradora,
deixando passar a ideia que houve um erro de avaliação (sem o fazer
explicitamente).
O comportamento
da procuradora foi de uma gravidade extrema. Explicaremos porquê.
1. A detenção
com base no perigo de continuação da atividade criminosa e de perturbação
do inquérito é, no mínimo, desajustada e infeliz. Os militares foram detidos
quando faltavam cinco dias para terminar o curso, já na chamada fase
operacional em que a continuação da alegada atividade criminosa era muito
remota. Falar em perturbação do inquérito mais de dois meses e meio após as
mortes, por parte de pessoas que convivem diariamente é um argumento tão
insensato que nem merece comentário. A Sr.ª procuradora devia ter feito mais
trabalho de casa.
2. O texto do despacho da
procuradora está envaido de preconceito. Em vez de provas temos apreciações
subjetivas. E raiva. Há algo que não bate certo com o senso comum. Não é sério
fazer juízos de valor de natureza psicológica sobre arguidos que nunca ouviu,
com quem nunca falou.
3. Os termos usados no despacho são
de uma agressividade gratuita e não estabelecem uma relação de causa / efeito
para as mortes. Resumem-se a interpretações extrajudiciais, opiniões, sem
relação com factos. Falta-lhes a objetividade exigida ao exercício da justiça. A sr.ª
procuradora pode fazer aqueles comentários no café, no intervalo de uma dentada
no pastel de nata; nunca num documento oficial.
4. Ódio patológico é uma doença.
Tem de ser tratado, não punido. Pessoas com problemas patológicos do foro
psiquiátrico são inimputáveis. Ou será que estou a ver mal?
5. A procuradora meteu no mesmo
saco “Comandos”, um corpo de tropas respeitável que muito tem dado ao país, com
o gangue do multibanco, os “skinheads” ou os “No Name boys”, aquilo com que
estava habituada a lidar, antes de ter sido afastada de funções. Parece não ter
ainda percebido que já não presta serviço na secção de criminalidade violenta,
do DIAP.
6. Tendo o DIAP uma secção (a 10.ª) que trata apenas da
investigação de crimes militares, não se percebe (se calhar até se percebe) a
nomeação de uma pessoa desconhecedora das especificidades do funcionamento da
Instituição militar para investigar este caso.
Para já, a procuradora perdeu a
primeira batalha. Não conseguiu a prisão preventiva dos arguidos, o seu
objetivo imediato. Tudo indicava que as palavras utilizadas no despacho visavam
obter do juiz medidas de coação mais duras, nomeadamente a prisão preventiva,
apesar de os seus pressupostos não se encontrarem configurados. Era óbvio para
qualquer observador isento, o que parece não ser o caso em apreço.
O despacho da Sr.ª procuradora
revela que não se encontra à altura do desafio que o Ministério Público lhe
entregou. Falta-lhe imparcialidade e lucidez. Move-a algo estranho e
indecifrável. O bom sendo aconselha-me a não ir mais longe em comentários sobre
perfis e estados psicológicos. Resta-me, contudo, uma dúvida “existencialista”.
Quem é que afinal tem ódios patológicos?
Post
Scriptum
1. Porque é que o programa “Sexta às 9” entrevistou o diretor de
saúde militar das Forças Armadas em vez de entrevistar o diretor do Hospital
das Forças Armadas (HFAR)? Teria sido seguramente muito mais esclarecedor.
2. O médico afirmou que abandonou o posto de trabalho para preparar
a receção dos militares acidentados no HFAR. Porquê? É estranho. Mais tarde ou
mais cedo, alguém terá de esclarecer o que aconteceu para que o médico não
tivesse conseguido evacuar os dois doentes pelo canal sanitário militar. Estou
convicto que em sede própria será encontrada resposta para esta questão.
3. O diretor de saúde das Forças Armadas afirmou que a urgência
do hospital está sempre preparada. Posso arranjar dezenas de pessoas
disponíveis para testemunhar o contrário. Começando pelo meu próprio caso.
Seria interessante fazer um questionário sobre o nível de satisfação dos
utentes do HFAR. Sobre a alegada preparação do serviço de urgências, seria
fundamental, por exemplo, esclarecer se a capacidade de hemodiálise instalada na
unidade de cuidados intensivos é compatível com as necessidades.
4. Ficou-me uma dúvida. Qual é afinal o canal de evacuação
sanitário? O INEM?
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
Terrorism or Insurgency? Europe at a Cross Road

The 2015 terrorist attacks in Paris and this year’s again in Paris and Brussels had a tremendous impact on the European public opinion. This brought terrorism and ISIS to the media’s front pages and headlines. ISIS claimed responsibility for the deadly multiple attacks that shook Paris and Brussels. Many pundits and politicians saw these events – and others similar - as expressions of the “revolution” that ISIS is allegedly exporting worldwide. In other words, a terrorist threat posed by ISIS to Europe.
We disagree with the exaggerated manner in which these attacks are
presented to the public and the menace ISIS is to
Western security.
A limited danger has been portrayed as an
“existential” threat, spreading fright and anxiety.
In the media, in political
discourse, in our daily lives, terrorism is now perceived as being omnipresent.
A certain form of collective psychosis is developing within the population,
which is perhaps more insidious and dangerous than terrorism itself.
As the fear of terrorism grows in Europe, it is important to determine
how real the threat is. According to the Global Terrorism Database, in the past
45 years, there have been more than 16.000 terror attacks in Western Europe, an
average of more than 350 year.
The peak was reached in 1979, when 1,019 attacks were perpetrated in
Europe, but all through the 1970s, 1980s, and mid-1990s attacks occurred with
an average frequency of about 10 per week. Since 1997, the trend line has been
even lower[1].
This year, however, stands out in terms of casualties. Both the number
of dead and wounded is above the average of the past 45 years, though still
below the levels of the 1970s and 1980s. Indeed, there were significantly more
attacks – and victims – in the last decades of the 20th century than
in the first part of the 21st.
For instance, according to figures from the Global Terrorism Database,
there were more than 1,000 attacks in 1979 in western Europe compared with
around 300 in 2015. From the mid-1970s until the mid-1990s, more than 150
persons died every year from terrorism in Europe, while that number dropped to
double digits in the following years. Even with the Paris attacks, there were
still fewer fatalities from terrorism in Europe in 2015 than in an average year
of the late 20th century. Today’s fear of terrorism has more to do with
psychology – how people perceive and live with terrorism – than with the actual
threat.
The prevailing idea attributes these acts to ISIS through their proxy
obedient dormant lone wolves residing in European states, ready to wake up and
lash out attacks when ordered to do so. The advanced explanation misses the
point and does not in reality explain the phenomena behind those acts. Beyond
insufficient, the responses seem to be rather simplistic and divert the
attention from the crucial debate: what do these jihadist attacks really mean
to Europe?
The menace is conveyed in a
misgiving manner, masking
other security challenges that require urgent care, which are not on the agenda
of the European policy makers. The answer that we will try to rehearse in this
paper is much more complex: there is in fact an existential threat to Europe
however, it is not posed by the ISIS, but by the expanding radicalization of large sectors of the Muslim population
in Europe, which those attacks are
just an expression of.
We argue that those attacks
are just manifestations of social movements on the rise with sectarian
motivations capable, in the long term, of developing into insurgencies; with
potential to evolve into mass movements that will wipe out the continent, if
the European decision makers do not take firm and urgent measures, in a
coordinated manner.
Those vicious terrorist attacks have to be understood within the
framework of sectarian insurgent movements still in the nest. Regardless of
what will happen to the ISIS in the battlefield, the evolution of these socio-political
movements will not be influenced by the ISIS’ fate. These movements do not need
the ISIS to survive; they are autonomous, autochthones and not necessarily an
ISIS lunga manus. Therefore, a couple of matters need previous clarification before
moving onto the analysis of the current jihadist upsurge in Europe.
Firstly, we need to
understand what kind of movement the ISIS is and what differentiates it from Al
Qaeda: the former is an insurgent movement that uses terrorist tactics, as any
insurgent movement; and the latter a terrorist organisation. Both organisations
pursuit the same goal: to found a global caliphate, but
the ways to achieve it are
radically different. Despite belonging to the same
Salafi - jihadist family, there are significant conceptual
and tactical differences between them.
Al Qaeda prioritizes the
distant enemy, that is, the United States and European countries. It aims at
attacking first these enemies and delaying confrontation with its immediate
enemy, i.e. the Middle Eastern regimes, including the Shia’s. Its attention is
concentrated on killing and fighting Americans; Al Qaeda ordered its followers
to avoid distracting jihad away from the distant to the closest enemy.
Conversely, the ISIS
actively pursues an “Iraq first” approach. In contrast to Al Qaeda, ISIS
prioritizes the fight against Shias (wherever they are) and Iran, putting them
on the top of the enemies’ list. The ISIS
sees the struggle against the United States and European countries as a
secondary goal that must be deferred until a Sunni Islamic state is built in
the heart of Arabia. Its main goal is to consolidate its grip on the Iraqi and
Syrian territories it occupies. Why is this important? Because it will help us
to understand the real ISIS reach in Europe and in the world. We will elaborate
on this issue further on.
A second point that
deserves to be underlined and that clearly differentiates a terrorist from an
insurgent organisation is the support of the population. In this sense, ISIS
differs fundamentally from Al Qaeda. While, on the one hand, ISIS nourishes a
social constituency rooted in a pan-Sunni identity that provides it with a
plentiful source of potential recruits (Gerges, 200) as well as a territorial and political safe
haven; on the other hand, Al Qaeda is an underground, transnational and
borderless organization (Gerges, 223).
As an insurgent group, ISIS
intermingles with local Sunni communities. ISIS has a social base. It thrives
among poor and disenfranchised Sunni communities. The lower-class background of
ISIS’s combatants explains why the organization justifies its actions as a
defense of the poor and disfranchised (Gerges, 11). The ISIS narrative found
acceptance in socially traumatized rural areas and urban poverty belts
devastated by drought and war. ISIS used the revolt of the poor, particularly
agrarian populations against authority as an integral part of its ideological
project (Gerges, 200). Moreover, Sunni rebels and tribes played a
pivotal role in facilitating ISIS’s military actions. ISIS recognized their
role and the importance of their backing. ISIS might not be a mass movement but
it is surely a social movement with an expanding social base, especially amongst
the youth.
Thirdly, ISIS managed – so
far - to lead a successful insurgency. According to the insurgency doctrine,
ISIS reached the 5th phase of an insurgency which is called
insurrection, when insurgent forces are able to fight the governmental forces
on equal footing[2].
ISIS has a mini-professional army, an army capable of waging urban and
guerrilla warfare, as well as conventional warfare (Gerges, 143). The military
expertise provided by former Baathist officers, together with the skills of the
veterans of Al Qaeda in Iraq, transformed ISIS into an effective fighting
machine.
In this phase of an insurgency,
insurgent forces are expected to control some parts of the disputed territory
(the so-called liberated areas), where they develop rudimentary infrastructures
of administration and governance[3]. This
happened in several places and in Iraq as well. ISIS provides the inhabitants
of these controlled territories with basic services, physical security and
daily subsistence. ISIS has also set up its own system of taxation. All of this
makes ISIS radically different from Al Qaeda.
For some pundits, ISIS is more dangerous than Al Qaeda
because Al Qaeda neither controlled territory, people, nor had an immediate
design to create a state of its own. We tend to disagree with such an
assessment. This is precisely the weakness of the ISIS project. The explanation
was given by Bin Laden himself, who warned against the rush to create Islamic
emirates, because experience has shown that the United States would crush them.
The declaration of Islamic states would be like “putting the cart before the
horse” (Gerges, 95). It would become a vulnerability, a liability rather than
an asset. Bin Laden advised his followers first to wage a war of attrition
against the United States and weaken its ability to topple future Islamic
states. The facts speak for themselves, Bin Laden was correct. The project of
the caliphate is in serious danger and doomed to fail. It will fail because it
was ill-conceived.
This leads us to the real
ISIS worldwide reach, of note in Europe. We also challenge the idea that ISIS
has spread its tentacles worldwide; that ISIS is executing a campaign to terrorize and polarize
Europe. The matter of the fact is that a series of attackers, especially the so
called lone wolves, never had contacts with a terrorist group. We do question ISIS’ capacity
to plan, direct, command and control terrorist attacks several thousand kilometres
faraway. ISIS claims responsibility for their attacks as mere acts of
propaganda to galvanize its followers. Pledging allegiance to ISIS is not necessarily
synonymous of ISIS expansion. ISIS is not founding branches in other parts of
the world. Its “expansion” works the other way around, in a bottom-up flow.
Thus,
we need to understand exactly what it means when a group announces loudly its
allegiance to ISIS and the precise implications thereof. The extensive network
of ISIS sympathizers across Europe has an autonomous existence. These groups do
not depend on ISIS to survive. As other jihadist organizations, these groups
have existed on their own even long before the ISIS was born. We should not
interpret a convenient and opportunistic pledge of allegiance as a tight
operational and political control of these networks by ISIS. The so-called
Wilayats (provinces) are grotesque imitations of a real empire’s provinces.
It
is true that ISIS used its military commander Abdelhamid Abouaad to coordinate
multiple attempts in Belgium and France. ISIS may send similar skilled
individuals back to their countries to plan terror attacks. We acknowledge that
when ISIS came under sustained military pressure, it
started devoting more resources to the battle abroad, to the fight against the
distant enemy, by inciting supporters to take action into their own hands, in
order to divert attention from its defeats. However, these actions only
represent a tactical shift in ISIS’s modus operandi, not a strategic change of
priorities. Its key goal continues to be the consolidation of its territories
in Syria and Iraq. ISIS is fundamentally, like the Taliban, a parochial,
localized and sectarian insurgent movement.
Having said that and without ignoring the possibility of ISIS inspiring
terrorist attacks through existing networks, European decision makers should be
focusing their attention on the real threat instead: the emergence of a
sectarian subversive social movement in Europe. This movement is still in a
very early phase. It has not established a strategic political agenda nor a centralized
political leadership yet For the time being, we are just speaking about
interconnected human networks.
The reputed Global
Terrorism Index states that the majority of terrorist attacks in the West are
not carried out by well-organized international groups. Instead, the terrorist
threat in the West largely comes from lone wolf terrorism. A disclaimer should
be added to this statement. The findings of the Global Index refer to terrorist
acts with other motivations than jihadism. Despite this, it is interesting to
note the definition of lone wolf terrorists used by the authors of the Global
Index, that is, individuals or a small number of individuals who commit an
attack in support of a group, movement, or ideology without material assistance
or orders from such a group[4]. While we agree with the
first finding, we lean towards challenging the second one, when it comes to the
authorship of jihadist terrorism in Europe. These acts – with increasing
complexity and specialization - organized by networks of radicalized groups
constituted by homegrown elements with different expertise, do not fit in the
lone wolf explanation.
The Spanish counter terrorism experience validates
this working hypothesis. According to an El
Cano Royal Institute report, the overwhelming jihadist actions in Spain
have developed by small groups and networks. As the report underlines, it is better to call
these groups networks not cells because their members may have frequently
different external affiliations or bounds (Reinares, García-Calvo, 20).
According to the same
report, the Jihadist mobilization in Spain since 2011 has stimulated the
setting up of new networks and the reconstitution of old ones. These networks,
initially constituted by Moroccan jihadists, have been progressively replaced
by others comprising autochthon and homegrown elements. This development is an
important game changer and a trend identifiable in other European countries.
The radicalization of
Muslim groups in Europe is growing by the day. Evidences are out there:
according to a pool in 2014, one
in six French citizens sympathizes with the ISIS. This percentage increases
among younger respondents, spiking at 27% for those aged 18-24[5]; in a report by the Belgium Defence
Minister, responding to a parliamentary question, around 60 Belgian soldiers showing sign of radicalization were surveyed by
military intelligence services[6];
groups of youngsters Muslims celebrated in the streets of Brussels the attacks
at the airport and metro that killed tens of people. We could put cite many
other examples.
The reasons why large segments
of the Muslim population are radicalizing deserves an in-depth study. We will
not miss the target, if we say the reason has deep sociological roots. Though a large portion of
Muslims in Europe come from families who have lived there for three or four
generations, many are not integrated in the societies where they live, living
instead in isolated Muslim-dominated areas. In a telling example of this
isolation, Matthew Levitt, the director of the Stein Program on
Counterterrorism and Intelligence, at the Washington Institute for Near East
Policy, noted in a recent article that only eight of the 114 imams in
Brussels speak any of Belgium's traditional languages[7]. Muslims migrate to the west
to better their lives, but they segregate themselves, form isolated communities and warn their children to not learn the ways of
unbelievers. A recent survey in England shows that nearly 30% of the
Muslim population have never entered in a non-Muslim home.
One
important reason to be receptive to the appealing calls for radicalization is
the worsening of the social conditions associated to Europe’s economic decline, which in
different ways affects different segments of the population. The cooling of the
European economy has disproportionately affected the Continent's Muslim
population and has created an alarmingly high unemployment rate among young
Muslims. In addition to frequent discrimination in the job market, this has
left many Muslims feeling alienated, disenfranchised and resentful. This has
created an atmosphere that favours those exposed to radical discourse to be
easily recruited into radical political or even militant activities.
But the economic decline in
Europe has another dangerous facet: it is responsible for a crisis of
representation; a growing number of citizens no longer feel represented by mainstream
political parties, unions and other traditional institutions. Therefore, the
prospects of the Muslim population adhering to the principles and values of
liberal democracies are very bleak, let alone joining the party system, which
itself is discredited and going through a dramatic transition, with the
political centre losing ground. If not addressed, this social movement risks
evolving into an uncontrollable political problem. However, to be properly addressed
this phenomena needs to be understood first.
For the aforementioned
reasons, we seriously doubt European societies can really integrate these
disenfranchised groups in the discredited party system of our liberal
democracies. Michel Houellebecq’s controversial vision of the future in France
is indeed benign, when he fictions in his book France an Islamized country by 2020,
where universities have to teach the Koran, women have to wear the veil and
polygamy is legal. All of this will happen without bloodshed, determined by the
will of the majority when votes are casted.
Time is not yet ripe in
Europe for the prevalence of a new order. At the moment, the aforementioned
networks are not sufficiently interconnected yet, neither have a centralized
leadership nor gather around a common political program. However, their
resilient existence allows us to say they may represent the embryo of a social
movement with potential of becoming a future political mass movement alien to
the values of liberal societies. This risk is getting worse, if these
disenfranchised groups adopt sectarian and fratricide violence to challenge
those values and principles. In an initial phase, such a sectarian and
subversive political environment in Europe would provoke the securitization, or
if we prefer, the “Israelization” of the continent with the strengthening of
its security structures and the marginalization of the moderate political
forces.
If this scenario is realistic,
we are witnessing the preliminary stage of an insurgency, which does not
exactly fit into the postulates of the insurgency doctrine. Actually, we can
identify at the moment actions that belong at the same time to the three first
phases of an insurgency. Although the subversive movement is still defragmented
and without a unifying strategy and defined political goals (as far as we
know), it is able to carry out visible actions, such as terrorist attacks.
Therefore, from our
standpoint, it is dangerous to equal terrorism – a strategic option – to
terrorist acts, a virulent tactical expression of an insurgency. Terrorism and
terrorist acts are different things. The former is a strategy, the latter is a
tactic. The similarities between these two phenomena is impeding many of us to
understand the facts. That is why we consider the exaggeration of the threat posed by the ISIL as dangerous, namely its
international expansion. The real threat is not ISIS, a short-lived
ill-conceived and painful project, as foreseen, by the way, by Bin Laden, but
the political mobilization of European Muslims who do not want to integrate in
the system. This is where the challenge lies, existential and civilizational.
Bibliography
·
Gerges, F. A., A History:
ISIS (2016). New Jersey. Princeton University
Press.
· Ministério do Exército
(1966). O Exército na Guerra-subversiva, Vol. I, Lisboa.
· Reinares,
F., García-Calvo, C. (2015).
Terroristas, Redes y Organizaciones:
Facetas de la Actual Movilización Yihadista en España (Documento de trabajo)
17/2015, Madrid. Real Instituto El Cano.
·
Global Terrorism Index 2015: Measuring and Understanding the Impact of
Terrorism. Institute for Economics & Peace.
· The Brussels Times, Saturday, 14 May 2016
19:49, Intelligence Services Surveying
60 Soldiers Showing Signs of Radicalisation. http://www.brusselstimes.com/media/k2/items/cache/faa000add7714a2605b386d1d560cef3_XL.jpg
·
Grant, M., as of 8/26/14
at 5:49 PM. 16% of French Citizens Support ISIS, Poll Finds. Newsweek. http://europe.newsweek.com/16-french-citizens-support-isis-poll-finds-266795?rm=eu
·
Matthew Levitt, My Journey Through Brussels' Terrorist Safe Haven,
March 27, 2016,
Politico. http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/my-journey-through-brussels-terrorist-safe-haven
[1] Merelli,
Annalisa. Charter: Terror Attacks in
Western Europe from the 1970s to now. http://qz.com/558597/charted-terror-attacks-in-western-europe-from-the-1970s-to-now.
[2] We considered as doctrinal
reference the Portuguese counter-insurgency manual (O Exército na
Guerra-subversiva, Vol. I. Ministério do Exército (1966). Lisboa.
[3] Idem.
[4] Global Terrorism Index 2015: Measuring and Understanding the Impact of
Terrorism (2015). Institute for Economics & Peace quoting Simon, J.D.,
‘Lone Wolf Terrorism: Understanding the Growing Threat’, Prometheus Books
(2013). Page 54.
[5] Newsweek, Madeline Grant, as of 8/26/14 AT 5:49 PM. 16% of French Citizens Support ISIS, Poll Finds.
http://europe.newsweek.com/16-french-citizens-support-isis-poll-finds-266795?rm=eu
[6] The
Brussels Times, Saturday, 14 May 2016 19:49, Intelligence services surveying 60 soldiers showing signs of
radicalisation.
[7]
Matthew
Levitt, My Journey Through Brussels' Terrorist Safe Haven, March 27, 2016, Politico
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
OS “SEXTA ÀS 9/11” E AS MORTES NOS COMANDOS. UM EXERCÍCIOZINHO DE JORNALISMOZINHO DE INVESTIGAÇÃOZINHA
1. No passado 30 de setembro, pela terceira semana
consecutiva, a morte dos instruendos do curso de Comandos foi tema dos
programas “Sexta às 9/11”. Os programas que nos foram apresentados como sendo jornalismo
de investigação (até se foi a França entrevistar a mãe de um dos soldados
falecidos) na senda de uma causa nobre (esclarecer a verdade), não passaram de
uma farsa informativa.
2. Três programas sobre o mesmo tema, sem se acrescentar
nada de verdadeiramente significativo, sugere um ensejo desmesurado em explorar
um rentável “scoop” em vez de uma verdadeira preocupação com o que terá levado
ao trágico fim das vítimas. O despudor em publicar a entrevista da mãe de um
dos falecidos, destroçada e emocionalmente vulnerável no rescaldo do funeral do
filho, parece inserir-se no nosso argumento, em vez dos elevados propósitos de
esclarecer a opinião pública sobre o sucedido. Explicaremos de seguida, os
motivos de tão graves acusações.
3. Independentemente daquilo que se vier a apurar quando a
investigação estiver concluída e os resultados forem tornados públicos (isto parece
ser um exercício redundante para os mentores do programa, para quem não há
dúvidas sobre a matéria), não poderemos deixar passar em vão o exercício
manipulativo e mentiroso, repleto de falsidades em que consistiram aqueles
programas. Muito poderia ser dito. Concentrar-nos-emos apenas nos aspetos mais
importantes, para que o leitor consiga ler o texto até ao fim.
4. No primeiro programa (16Set), foi defendida a tese de que
os dois instruendos que vieram a falecer foram retirados dos grupos de
instrução por um “sargento mau” que os levou para um local recôndito, longe das
vistas dos restantes instruendos, onde foram alegadamente seviciados. Alguém minimamente
informado sabe que esta hipótese é completamente inverosímil. Os instruendos
não pertenciam ao mesmo grupo. Ninguém está a ver um sargento “surripiar” um
instruendo a um grupo comandado por um oficial. Os pressupostos desta tese são
no mínimo delirantes. Só alguém completamente ignorante sobre o modo como
funciona a instrução pode considerar esta possibilidade.
5. No segundo programa (23Set), os responsáveis devem ter-se
esquecido da tese defendida na semana anterior. Serviram a audiência com uma
nova tese que contradizia a da semana anterior. Afinal, parece que alguém terá visto
(contaram) a comer terra um dos jovens que veio a falecer. Primeiro, não havia
testemunhas, era um lugar recôndito, agora há umas testemunhas que ouviram
alguém que tinha visto o jovem a comer terra. E só viram isso? só viram o jovem
a comer terra? Não viram mais nada? E como é que alguém que está inconsciente
come terra? Quem está inconsciente não consegue engolir.
6. A tese do primeiro programa não bate certo com a tese do
segundo.
7. O segundo programa teve a colaboração de dois
“especialistas”: um em medicina do desporto e outro em direito, por sinal um
advogado bem conhecido do público pelo seu envolvimento em vários processos
mediáticos.
8. Das várias observações feitas pelo reputado especialista
em medicina do desporto vou comentar a que me parece ser mais relevante para o
que está em causa. Uma pessoa informada devia saber que treino desportivo e treino militar só têm em comum uma
coisa: a expressão treino, porque o resto é completamente diferente. Devia ter sido capaz de fazer essa distrinça, o que não aconteceu. Não é a
mesma coisa fazer uma maratona ou uma marcha “Comando”. Esqui e combate em
montanha invernal são coisas essencialmente distintas; paraquedismo e
paraquedismo militar são igualmente diferentes; aplica-se o mesmo ao mergulho,
etc. Umas são atividades lúdicas, as outras são atividades destinadas a
preparar o combatente para sobreviver no campo de batalha. Como veremos, pode ser falacioso tentar extrapolar experiências de um caso para o outro.
9. Os militares têm a mania de se fazer acompanhar de uns
adereços (mochilas, armamento, capacetes, etc.). Quem vai para Andorra ou Serra
Nevada esquiar com o intuito de fruir desce a montanha nas zonas de neve batida e em condições meteorológicas
simpáticas. Enquanto o “invernante” sobe à montanha através dos denominados meios de
elevação, a rapaziada militar sobe com peles de focas nos esquis e fora da neve
batida, e desce onde não há pistas. E
não pernoita no hotel. Dorme em igloos ou em covas feitas na neve; e sempre
acompanhado dos tais adereços. É capaz de haver alguma diferença entre atividade
lúcida e preparação para o combate. Digo eu.
10. E o que é que nos propõe o especialista em medicina do
desporto que se prestou a participar no programa? A guerra do Raúl Solnado! O
seu conselho é que a atividade física deve ser cancelada ou interrompida a
partir dos 28 graus (vejam o programa para confirmarem a veracidade do que
afirmo). Isto não pode ser levado a sério! Sem pretender contestar os
conhecimentos da pessoa em causa em matéria de medicina desportiva, tinha-lhe
ficado bem alguma contenção verbal. Expôs-se. Não havia necessidade.
11. Aproveito a oportunidade para esclarecer mais uma
pequena diferença entre desporto e combate. O desporto é uma atividade de
lazer, que envolve muito sacrifício na alta competição e pode em situações
extremas levar à morte. Mas a acontecer isso, decorre de uma decisão do
próprio. A guerra é diferente. A guerra é uma merda. Morre-se; mata-se; mata-se
para não se morrer; deixa pessoas estropiadas mental e fisicamente para toda a
vida. Não se pode dizer ao inimigo para parar a guerra quando a temperatura for
superior a 28 graus. Combater acima dos 28 graus? Não, assim não vale. Não há
guerra para ninguém. Sugiro que arranjem outros argumentos. Estes não servem. São maus de
mais.
12. O outro especialista, o conhecido advogado da nossa
praça não estava informado sobre os acontecimentos. Podia ter-se preparado e
saber, por exemplo, que os acontecimentos ocorreram em momentos diferentes.
Dispensa-se a sua dissertação sobre as possibilidades teóricas legais do que poderá
acontecer aos envolvidos no caso, que já eram do conhecimento de todos. Não contribuiu com a
sua sapiência para aumentar o nosso conhecimento. E já agora convém esclarecer
que o Exército não precisa dos seus conselhos paternalistas sobre a forma de como
se prestigiar com esta investigação. Informe-se primeiro e fale depois.
13. Na ausência de matéria séria para discutir, o programa
enveredou por acusações graves e completamente infundadas: o Exército quer
impedir o apuramento da verdade, o Exército quer abafar e ocultar, não quer
esclarecer a verdade. Em que se baseiam estas afirmações? Onde está a evidência
que o Exército está a fugir com o “rabo à seringa”? é grave a pivot do programa
ter embarcado nesta linha de comentários gratuitos só porque não lhe
satisfizeram o capricho de lhe dar informação que está em segredo de justiça.
14. Choca-me a ânsia desenfreada de notoriedade. Choca-me
ver pessoas articuladas prestarem-se a comportamentos tipo “tesourinhos
deprimentes”. O que os leva a isto? Contributo cívico para o apuramento da
verdade? Certamente que não. Estará o nosso advogado disponível em apoiar pro bonno as famílias quando decidirem
processar o Estado? Vi um dia destes um ex-membro do Tribunal Constitucional,
ex-ministro e ex outras coisas no tabloide que dá pela designação de CMTV, no programa da Maia, também a mandar
bitaites sobre os acontecimentos nos Comandos. Estas pessoas não se enxergam?
Vá lá, um pouquinho de pudor e bom senso.
15. O canal público tem repetido ad nauseam uma série de “imprecisões”
que mais tarde ou mais cedo terá de se retratar e que são importantes em
matéria de factos e de opinião pública: o primeiro acidente ocorre a meio do
primeiro dia de treino, e não no segundo dia como tem vindo a ser reiteradamente
afirmado (à boa maneira goebeliana); os Comandos assinaram um pacto de
confidencialidade (nunca se fez isso em mais de 50 anos dos Comandos). Foi
muito grave confundir a opinião pública misturando um contrato de trabalho que
todos os soldados que prestam serviço no Exército têm de assinar, no mesmo
pacote em que se falava em pacto de confidencialidade. Se não foi intencional,
convém que alguém se esclareça rapidamente a trapalhada, porque é abjeto e absolutamente
inaceitável manter esta “imprecisão” no limbo. A isto chama-se manipulação.
16. É mais do que natural que haja pessoas que não queiram
falar com os promotores do programa. Também fui contatado pela sua direção para
ser entrevistado. Não é de admirar. Desconfiam - legitimamente - do elevado propósito
dos seus promotores. Não se podem queixar do facto das pessoas não quererem
falar. Estão no seu direito. Daí a um pacto de silêncio vai uma grande
distância.
17. O último programa (30Set) foi absolutamente tétrico. Foi
brilhante a ideia de entrevistarem uma pessoa (mais cinco minutos de fama) que
chumbou no curso de Comandos há 35 anos, para falar e fazer extrapolações sobre
o curso de Comandos em 2016. Isto não é sério! É mais um exercício manipulativo!
Afanosamente, o jornalista que entrevistou o tal “não-Comando” (fonte de
elevada credibilidade para o apuramento da verdade) perguntava se também comiam
terra nessa altura. Se soubesse da poda, ter-lhe-ia feito perguntas muito mais
interessantes.
18. Os “Sextas às 9/11” dedicados aos problemas na instrução dos Comandos foram de uma qualidade confrangedora…rasteirinha. Quando os
promotores do programa souberem distinguir um burro de um burro do mato venham
então a jogo. A televisão pública não saiu dignificada deste exercício pobre e tosco.
domingo, 11 de setembro de 2016
Ainda as Mortes em Instrução no Campo Militar de Alcochete
1.
Provavelmente não irei aumentar o número de amigos com o que vou escrever.
Contudo, não poderia deixar de o fazer, face ao modo enviesado como os
incidentes ocorridos em Alcochete, no dia 4 de setembro, estão a ser tratados
em vários fóruns, deixando passar a ideia de que a responsabilidade pela
tragédia deve-se à brutalidade da instrução e ao comportamento de instrutores insensatos
e irresponsáveis. Não é o caso, como argumentarei de seguida.
2.
Passada quase uma semana sobre os acontecimentos que vitimaram dois instruendos
do 127.ª curso de Comandos é possível fazer uma leitura mais precisa do que
aconteceu, mesmo antes de serem conhecidas as conclusões do inquérito que o
General CEME mandou instaurar.
3.
Não são aceitáveis mortes em instrução. Não há justificações para que isso
aconteça. Tentativas para minorar a importância dos acontecimentos com casos
semelhantes ocorridos noutros países ou com o risco associado ao exercício de
qualquer atividade humana (maior numas do que noutras) fragilizam o debate,
para além de serem grotescas e irresponsáveis. A opinião pública não aceita
esses argumentos. Essa narrativa coloca a especialidade numa situação de grande
fragilidade.
4.
Devo dizer que é muito estranho o que aconteceu. Respostas rápidas correm o
risco de serem imprecisas. As vítimas sentiram-se indispostas no meio do
primeiro dia de exercícios. Apesar do calor que se fazia sentir, por muito
violenta que fosse a instrução era muito cedo para causar tão trágico desfecho.
A validade da tese de instrução com elevada intensidade e desajustada à
temperatura que se fazia sentir tornava-se credível se tivesse ocorrido mais
tarde. Quem lá andou sabe exatamente do que estou a falar.
5.
A explicação baseada na carga exagerada da instrução não responde às dúvidas
que se colocaram, pelo menos a grande parte delas. Conheço bem o comandante do
Regimento de Comandos. Fui seu diretor do curso de Comandos. Foi o melhor
classificado do curso. É uma pessoa sensata, ponderada e cautelosa. A isto
acresce-se experiência no Afeganistão. Sei qual o seu pensamento sobre a
instrução. Falámos muito sobre o tema. Nunca permitiria exageros. Para além do
mais, houve alterações ao programa do curso, ainda antes do seu início, de modo
a adaptar a instrução ao calor que se fazia sentir, nomeadamente suspendendo
algumas sessões.
6.
A não ser uma carga de esforço exagerada, qual poderia ser a causa? Não
conhecendo as conclusões do inquérito, afiguram-se-nos algumas respostas
extremamente plausíveis e verosímeis:
(1)
Não se pode afastar a hipótese de uma avaliação médica errada. Não digo que
foi, digo apenas que se tem de considerar como uma hipótese possível, assim
como outras. É inexplicável o que aconteceu. O furriel que faleceu sentiu-se
indisposto pelas 15h40, a meio do primeiro dia instrução. Muito cedo para
acontecerem coisas desta gravidade. Foi afastado imediatamente da instrução e
esteve em repouso cerca de 5 horas antes de falecer. Parece que não terão sido
tomadas as medidas mais adequadas para o salvar. Se tivesse sido evacuado na
devida altura as hipóteses de sobreviver eram bastante elevadas. Como é que é
possível que não exista capacidade de evacuação imediata (necessidade
verificada pelo médico pelas 19h) e o INEM só chegar a Alcochete pelas 20h37?
(2)
Outra possibilidade prende-se com as limitações físicas impeditivas da
frequência do curso, não detetados na inspeção médica como, por exemplo, uma
cardiopatia congénita. Sobre este tema o relatório do inquérito poderá
responder à especulação.
(3)
Uma outra possibilidade, eventualmente mais remota, tem a ver com o recurso a
estimulantes por parte das vítimas. Como no caso anterior, teremos brevemente
resposta a esta questão.
7.
A primeira hipótese merece uma análise mais cuidada. A evacuação das vítimas
não foi um processo fácil e imediato. A médica de serviço ao HFAR recusou-se a
receber todos os pacientes por não ter condições e, portanto, estes tiveram de
ser encaminhados para hospitais civis. Cabe referir que o Hospital das Forças
Armadas (HFAR) não tem serviço de urgências. Repito, o hospital militar
nacional não tem serviço de urgência, fruto das restruturações da saúde militar
levadas a cabo pelo governo anterior, naturalmente com cumplicidades no seio da
Instituição militar, o que não deixa de ser algo tremendamente insólito e grave
que tem de ser devidamente apurado. Na prática criou-se um centro de saúde
avantajado em vez de um hospital. Os resultados dessa restruturação estão à
nossa frente. Uma evacuação a tempo podia ter evitado este desfecho.
8.
É aceitável que um hospital militar que devia funcionar como uma reserva da
Nação para servir supletivamente as necessidades do país em casos de emergência
ou de catástrofe se tenha de socorrer de hospitais civis, em tempo de paz, para
internar quatro pessoas? Não só não é aceitável como os responsáveis pelo
estado a que isto chegou têm de assumir as suas responsabilidades. A tutela do
HFAR não pode sacudir a água do capote. Tem de explicar por que deixou a
situação degradar-se a este ponto.
9.
Igualmente grave é o modo a que chegou a saúde operacional nas Forças Armadas e
no Exército em particular. As unidades foram desprovidas de meios sanitários
adequados. Provavelmente terão capacidade para desencravar unhas. Do mesmo modo
que a população evita os Centros de Saúde e se dirige às urgências dos hospitais, também o
HFAR funciona, na maioria dos casos, como a primeira frente da saúde militar
operacional. Por isso, quatro dos instruendos que foram ao hospital por
precaução regressaram para a instrução. Os órgãos da comunicação social
apresentaram as evacuações todas iguais, quando havia diferenças significativas
entre elas. Ir ao hospital preventivamente enquadra-se no risco aceitável deste
tipo de formação. Não pode ser utilizado como arma de arremesso contra a dureza
da instrução, domínio onde não poderão haver cedências.
10.
Sem pretender atribuir responsabilidades ao atual CEME que assumiu funções há alguns
meses, não podemos deixar de ver com estranheza o facto do projeto de
investigação em parceria com a Universidade do Porto, com o objetivo de definir
“marcadores de esforço” que permitam atuar preventivamente e evitar a rabdomiolise ser uma iniciativa do próprio Regimento de
Comandos, quando deveria ter sido um esforço organizacional de maior dimensão.
11.
Pelos motivos longamente explicados, colocar toda a responsabilidade dos
acontecimento em cima do Regimento de Comandos é incorrer num erro grave. É
fechar os olhos aos erros no processo de criação do HFAR que mais uma vez não
se mostrou à altura dos acontecimentos. E isto não acontece por causa da
qualidade dos recursos humanos que ali prestam serviço, mas sim pela forma
irresponsável, impensada e amadora como foi feita a restruturação da saúde
militar. No apuramento das responsabilidades, a tutela do HFAR não pode ficar imune.
12.
Vários órgãos da Comunicação Social têm ventilado a possibilidade de o Governo
extinguir novamente os Comandos. Hoje, um partido político defendeu-o abertamente. Foi confrangedor ouvir dislates e manifestações de ignorância
de pessoas que têm obrigação de ter mais conhecimento sobre aquilo que falam e de ser mais cuidadosas nas declarações que fazem, correndo o risco de não serem levadas a sério e deixarem de ser respeitadas. Não me parece
sensato colocar essa possibilidade na agenda. No Estado da Arte do dia de hoje,
tudo indica ter havido falhas graves num sistema de evacuação que devia ter
funcionado e não funcionou. Não é sério colocar o ónus nos Comandos.
quarta-feira, 1 de junho de 2016
A Teoria do Regabofe Aplicada ao Recrutamento dos Cargos Dirigentes do Ministério da Defesa Nacional (MDN)
Os
cargos dirigentes a que nos referimos no título são os de Diretor-Geral e de Subdiretor-Geral.
Passa-se algo de absolutamente insólito (e penso que de inédito) no MDN. O
Diretor-Geral de Defesa Nacional (DGPDN) encontra-se em funções, em regime de
substituição, há 1440 dias quando a lei estipula que os cargos dirigentes podem ser exercidos em regime de
substituição, entre outras situações, por 60 dias sobre a data da vacatura do
lugar, salvo se estiver em curso procedimento tendente à nomeação de novo
titular.
Entretanto, em dezembro de 2013 houve um concurso (ano
e meio após o incumbente do cargo ter sido nomeado em regime de substituição)
com vista ao provimento definitivo do cargo que foi cancelado após as
entrevistas, sem que os entrevistados tenham alguma vez sido informados dos
motivos do cancelamento.
O cancelamento do concurso pelo então MDN teria sido
uma retaliação pelo facto do seu protegido, leia-se o DGPDN em regime de
substituição, por ele nomeado há mais de ano e meio, não fazer parte da lista
curta. Era conhecida a proximidade entre o DGPDN e o então MDN. O Presidente da
CRESAP trocou-lhes as voltas.
Em julho de 2015, já no estertor da governação
PSD/CDS, foi lançado um novo concurso para DGPDN. Com a previsível (nessa
altura) vitória do PS, o incumbente do cargo decidiu não concorrer, para não
passar pela humilhação de não integrar novamente a lista curta. Não lhe passava
pela cabeça que o MDN de um futuro governo PS viesse também a ser um seu grande
amigo do peito.
Quando o novo MDN – do governo PS – se apercebe que o
seu amigo do peito não concorreu ao cargo que ocupava em
regime de substituição e, por isso, estava fora da corrida decide cancelar o
concurso argumentando que o perfil de
competências definido pela anterior tutela não preenchia as exigências que se
colocavam presentemente ao desempenho da função de diretor-geral de Política de
Defesa Nacional.
À presente data, passados cerca de 90 dias de cancelamento do concurso
(e da confirmação do incumbente em regime de substituição) ainda não foi
lançado um novo procedimento concursal preparando-se o MDN para protelar no
cargo, como fez o seu antecessor, o atual incumbente do cargo…e amigo do peito.
É evidente e conhecida a existência de um triângulo de grande proximidade
(nomeadamente geográfica) entre o antigo e o atual MDN com o DGPDN ao ponto de violarem
descaradamente a lei. O atual MDN repete a “façanha” do seu antecessor, algo
impensável numa democracia saudável.
Estamos todos na expetativa em saber qual poderá ser o
conteúdo da nova carta de missão, quais serão as novas exigências que entretanto se vieram a colocar
para o desempenho daquele cargo. Para já, o MDN fez saber que militares e diplomatas
não poderão ser DGPDN por não serem isentos e refletirem posições
corporativas.
Fica-nos igualmente a curiosidade em saber qual poderia ter sido
a reação dos diplomatas se o ministro dos Negócios Estrangeiros tivesse
proferido declarações semelhantes relativamente à impossibilidade dos diplomatas
ocuparem cargos dirigentes nos diferentes órgãos do MNE, nomeadamente de
diretor-geral. O que pensarão os militares quando souberem que a sua tutela os
pretere para cargos no MDN? Pagaria para ver o MNE a fazer o mesmo.
Espantam-nos estas declarações dada a reação virulenta
do MDN contra as alegadas discriminações praticadas no Colégio Militar
relativamente à orientação sexual dos alunos, que levaram à demissão do antigo CEME. Com
este comportamento, o sr. Ministro revela possuir um sentimento de discriminação
muito seletivo.
Esperamos ardentemente pela nova carta de missão, para
ver se o Sr. ministro tem coragem de pôr no papel aquilo que já enunciou
publicamente reiteradas vezes. Estamos muito curiosos, sobretudo em saber quem
em Portugal poderá estar mais habilitado em matéria de planeamento militar de
defesa, cooperação técnico-militar, relações internacionais de defesa, etc. que
militares e diplomatas. Recordo que as exigências políticas do cargo de
Diretor-Geral não são comparáveis às de Ministro ou de Secretário de Estado.
Mas as situações de regabofe não se cingem ao caso do
DGPDN. A nomeação para o cargo de subdiretor-geral de Defesa Nacional é outro
caso gritante. A atual incumbente do cargo, conseguiu ser nomeada pelo MDN com
apenas oito meses de função pública, em detrimento de dois candidatos
extremamente capazes, com vários anos de DGPDN, larga experiência profissional
e provas dadas. Sabemos bem porque foi ela a escolhida. A razão não difere daquela enunciada para o caso anterior. Amiguismo, clientelismo e outras coisas parecidas. Mérito não foi...inquestionavelmente.
A cereja em cima do bolo foi a nomeação do
Diretor-Geral de Recursos de Defesa Nacional (DGRDN), durante muitos anos
Diretor-Geral de Pessoal e Recrutamento Militar. O DGRDN é por acumulação
Diretor Nacional de Armamento. Nesta situação participa (ou antes, deveria
participar) em vários fóruns internacionais no âmbito do armamento e das
indústrias de defesa, nomeadamente na Conferência de Diretores Nacionais de
Armamento, uma instância da OTAN. Devido às suas insuficiências linguísticas e
falta de conhecimento na matéria delega a representação nacional (manifestação
de bom sendo, diga-se de passagem) no seu subdiretor-geral para o Armamento.
Portugal deverá ser o único país da OTAN em que o incumbente do cargo não se
faz representar naquelas reuniões pelos motivos referidos.
Em consonância com o governo anterior, este MDN
continua a nomear para cargos dirigentes portadores de cartão de partido, mas
pertencentes à antiga maioria. Merece que se lhe tire o chapéu.
Alguns leitores deste texto que saibam que concorri
aos cargos de DGPDN e DGRDN e que não fui o nomeado poderão acusar-me ao escrevê-lo de
ressabiamento. É fácil urdir essa acusação. Para os que me conhecem sabem que o faço como um ato de cidadania. Limitei-me a apresentar fatos. Deixo
que cada um tire as suas conclusões.
A democracia
não é algo adquirido para sempre. Aprofunda-se e/ou degrada-se todos os dias.
Atos promíscuos como os apresentados não são um bom indicador da qualidade da
democracia em Portugal. Cabe a nós todos não deixar que se degrade. Isso só
acontece com mobilização e fiscalização dos atos daqueles que elegemos. Não os
podemos deixar governar sem o nosso escrutínio. Deixo o pensamento e o apelo.
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